Por Chiara Lombardi — A atriz e diretora palermitana Emma Dante recebe o Leone d’Oro alla carriera 2026 da Biennale Teatro dirigida por Willem Dafoe. É um reconhecimento que ilumina um percurso artístico marcado pela investigação das famílias tóxicas, dos laços morbosos e das violências íntimas que se escondem sob a rotina doméstica. Em sua obra, o palco funciona como um espelho do nosso tempo: revela, refrata e por vezes distorce a intimidade para que possamos finalmente olhar o que insistimos em negar.
No próximo Festival Internacional de Teatro de Veneza (54ª edição, 7 a 21 de junho), estreará em primeira absoluta I fantasmi di Basile, peça inspirada no imaginário do napolitano Giambattista Basile — um retorno da autora àquele universo depois da trilogia formada por La scortecata, Pupo di zucchero e Re Chicchinella. A grande aposta de Dante é justamente transformar contos e arquétipos em cenários de denúncia social, onde o fantástico e o brutal convivem como em uma fábula que não nos poupa.
“Me interessa indagar dentro daquele pequeno núcleo de que a sociedade é uma amplificação”, disse Dante. Traduzida ao pé da letra, essa frase é a chave do seu teatro: a família como laboratório de regras morais, território onde se forjam normas e também se cristalizam abusos. Ela cita exemplos concretos — o suicídio dos pais de Claudio Carlomagno, o feminicídio de Federica Torzullo — episódios que, na sua leitura, têm a densidade trágica de uma peça grega. A pergunta que perpassa sua obra é o porquê desses colapsos: como a intimidade pode transformar-se em mecanismo de opressão?
Uma das escolhas formais mais incisivas de Emma Dante é o uso do dialeto. Para ela, o dialeto é linguagem-mãe, a língua da infância e da casa — o verdadeiro lugar dos segredos. “É a língua dos segredos, cheia de escrignos, incompreensível”, diz a diretora. No seu teatro convivem o siciliano, o napolitano e até o puglês: línguas que ela associa aos primeiros vagidos da humanidade, a “linguagens selváticas” que preservam uma fatura de autenticidade e violência emocional que o italiano padrão frequentemente dilui.
No palco de Dante, os personagens raramente se assentam; até a morte pode ocorrer em pé — como em mPalermu, uma escolha dramática que enfatiza a sismicidade da cena: a vida é desconfortável, logo a morte também precisa ser desalinhada, “em dialecto”, desconstruída. Essa recusa ao conforto formal também se liga à sua admiração por Tadeusz Kantor: a estética da incompletude, do corpo que se distancia do aplauso e devolve ao público a responsabilidade da interpretação.
A poesia de Dante, entretanto, não é condescendente. Cultiva o erro, o intervalo e o desequilíbrio como instrumentos de verossimilhança. A dúvida, afirma, é o motor da sua poética — um recurso crítico contra a certeza fácil, que muitas vezes naturaliza formas de violência. O teatro, para ela, é um reframe da realidade: não mero espelho, mas uma lente que amplia fissuras, revela roteiros ocultos e testa a empatia coletiva.
Ao premiar Emma Dante com o Leone d’Oro, a Biennale não celebra apenas uma carreira: reconhece um corpo de trabalho que insiste em transformar o palco em um dispositivo ético. O teatro de Dante nos convoca a habitar a cena do conflito familiar, a escutar línguas que guardam memórias impressas na pele e a encarar a violência doméstica como um problema público que nasce no íntimo. É um gesto político e estético, uma obra que reconstrói narrativas para que a cidade — e nós — possamos finalmente decifrar os segredos trancados nos lares.
Quem assiste às peças de Emma Dante sai com a sensação de ter sido atravessado: por personagens que não se assentam, por dialetos que assassinam as traduções fáceis, por histórias que sopram como ventos antigos num cenário de transformação. O prêmio em Veneza confirma que seu teatro continua sendo um farol — incômodo, preciso e essencial — para compreender o roteiro oculto da sociedade contemporânea.





















