Por Chiara Lombardi — Há artistas cujo papel na cena cultural funciona como um espelho do nosso tempo: reflete, deforma e nos força a ver o roteiro oculto da sociedade. Em conversa franca, Elio, líder dos Elio e le Storie Tese, revisita os 30 anos de “La terra dei cachi”, fala sobre a experiência de levar uma banda considerada “marziana” ao palco de Sanremo, e aborda temas íntimos e políticos — do autismo do filho à ausência do Stato no suporte às famílias.
Ao relembrar o histórico ingresso no Festival, Elio conta que a trajetória foi marcada por resistência e surpresa. «Quando gravamos, não imaginávamos que a canção teria um sopro tão longo», diz ele, num tom que mistura humor e ironia. Pressionados por un grande nome da televisão, aceitaram ir a Sanremo com a intenção de fazer uma sátira do artista «impegnato», reunindo clichês tão explícitos que pareciam impossível de ser mal interpretados. Mas foi justamente essa interpretação ambígua que os catapultou: «Depois da primeira apresentação, as senhoras do supermercado começaram a me olhar de um jeito diferente», recorda.
Há uma lembrança curiosa: antes do Festival, Piero Pelù os desencorajou a participar — «não era justo irmos» —, mas o acontecimento se transformou num divisor de águas. Antes de Sanremo, segundo Elio, a banda era praticamente invisível ao grande público; depois, virou assunto comum em famílias e prateleiras de supermercado. O episódio reforça a ideia de que o palco pode reescrever identidades culturais num instante, um reframe da realidade pública.
O artista também não se esquiva de política. Recorda o ataque aos políticos no Concertone de 1991 e a reação pública: provocação como dever do palco. Só em um caso — o de Formigoni — houve fúria, motivada por uma leitura superficial do título da música sobre o Parco Sempione. E lembra com afeição e respeito figuras do espetáculo: de Baudo, que lhes confiou até o Dopofestival em 2008, até Peppe Vessicchio, cuja presença e diversão nos bastidores eram inesquecíveis.
Mas a entrevista ganha tom mais pessoal quando Elio aborda o tema central da sua atual palavra pública: «Parlo dell’autismo di mio figlio, perché lo Stato è assente». Ele explica que falar abertamente sobre a condição do filho não é exposição fútil; é uma exigência política e ética. A ausência de políticas públicas eficazes e de redes de apoio transforma questões privadas em lacunas coletivas. Para Elio, a visibilidade serve como denúncia e chamada à ação: romper o estigma, exigir serviços e cuidado, redesenhar a responsabilidade social.
No capítulo sobre a cidade e o patrimônio, o músico critica a pressa em demolir: sobre San Siro opina que há «troppa fretta di abbattere». A decisão de apagar símbolos urbanos — mesmo quando controversos — deveria passar por um debate mais lento, que considere memória, identidade e o efeito simbólico dessas escolhas sobre a comunidade.
Por fim, sobre o recente caso envolvendo a maestrina Beatrice Venezi, Elio toma posição ao lado das orquestras: apoia a autonomia artística e lembra que instituições musicais são organismos vivos, espaços de construção coletiva. «Sto con l’orchestra», resume, em defesa de práticas que preservem repertório, educação musical e pluralidade interpretativa.
O retrato que Elio oferece é, ao mesmo tempo, íntimo e público — a biografia de uma canção que virou espelho, a profissão transformada de engenheiro em figura cultural, e a experiência familiar que se converte em crítica social. Em seu discurso, o artista nos obriga a olhar além do show: a cultura sempre foi, e continuará sendo, o roteiro onde se revela a complexidade de uma nação.






















