Por Chiara Lombardi — Em um equilíbrio entre brilho pop e autoconsciência, Elettra Lamborghini prepara sua segunda participação no Festival de Sanremo com a faixa «Voilà». A cantora, que sempre foi ao mesmo tempo ícone midiático e alvo de críticas, vem afirmando que busca mostrar agora uma versão mais adulta e séria de si — sem abrir mão da energia que a tornou conhecida.
A artista comentou com simpatia o presidente Mattarella, cujo discurso ela definiu como «maravilhoso e super motivacional». Mas é na palpitação pré-apresentação que Elettra traduz com humor a tensão do grande palco: «Meu coração faz pum pum pum. A única coisa que me preocupa, mesmo nos ensaios, é descer a escada. Sinto que vou desmaiar, principalmente porque uso vestidos justos e, sendo boa de garfo, pioro tudo com tortellini antes de subir.» O desconcerto entre corpo e espetáculo vira, para ela, exercício de respiração — e pequena fábula sobre a exatidão do rito televisivo.
Musicalmente, «Voilà» não é a Elettra latina-reggaeton que o público às vezes espera. «Estou evoluindo e também minha música está mudando», diz. É um número em que ela própria afirma que, ao ouvir, já pensou que gostaria de tê-lo cantado. O texto é sensual, com noites quentes e a imagem de uma cama onde se faz as pazes, mas tudo em tom velado — um jogo de «vejo não vejo» em que, com ironia, ela confessa: «Eu na cama faço grandes sonecas.»
Há uma reverência explícita a Raffaella Carrà nos timbres disco dos anos 1970 e na leveza performática. «Me inspiro nela — icônica e revolucionária, cantora e dançarina, bolonhesa como eu, sempre com um sorriso.» Se Carrà foi unanimidade em adoração, Elettra enfrenta uma paisagem midiática diferente: «Na época da Carrà não havia redes sociais e essa informação grátis que cria fake news. Recentemente fiquei irritada por uma notícia falsa sobre mim; o mesmo aconteceu com Diletta Leotta. Os bots geram maldade e ódio gratuito.»
A memória de Sanremo 2020 ainda pesa: a performance de «Musica (e il resto scompare)» foi duramente criticada. «Saí do palco convencida de que tinha arrasado. No camarim, todo mundo olhou: ‘foi uma merda’. Fiquei magoada, mas houve problemas técnicos… Na competição foi como foi, mas a música acabou funcionando depois.» Para «Voilà», as primeiras avaliações em audição colocaram-na nas últimas posições. «Não me abalo. Sei que é inevitável que existam preconceitos por causa do meu cognome e que, por isso, o público prefira quem fez a gaveta. No começo isso me derrubava; agora espero só que, quando ouvirem a canção, mudem de ideia.»
Ao mesmo tempo em que reivindica maturidade artística, Elettra promete diversão: na noite das covers «se dança e se diverte». E há ainda um capítulo curioso do roteiro do festival: ela dividirá o palco com as Las Ketchup para revisitar o hit veranil «Aserejé». Essa mistura de reverência, estratégia pop e autenticidade compõe o que Elettra quer mostrar em Sanremo — menos um espetáculo de ego e mais um espelho do seu tempo, um reframe público de quem cresceu na vitrine e decide, enfim, controlar a narrativa.
Ao falar sobre críticas e rótulos familiares, a artista traça um mapa íntimo do que é hoje ser figura pública: a tensão entre herança social e desejo de ser julgada apenas pela obra. No roteiro oculto da sociedade midiática, sua presença em Sanremo funciona como um pequeno terremoto cultural: incômodo para alguns, renovação para outros, reflexo de um mercado que precisa entender que imagem e intenção nem sempre se alinham.






















