Por Chiara Lombardi — Em Sanremo, o prazer da canção às vezes divide cena com o ruído da cidade. No meio do brilho do Ariston, Elettra Lamborghini provocou risos e curiosidade ao mencionar os misteriosos “festini bilaterali” que, segundo ela, vinham acontecendo sob o quarto em que estava hospedada — e que a impediam de dormir. A observação, feita na noite em que subiu ao palco, surpreendeu os apresentadores Carlo Conti e Laura Pausini e transformou um incômodo pessoal em comentário público.
Não é apenas uma anedota de bastidores: a artista bolognesa — famosa por seu twerking e por defender um estilo de vida saudável — decidiu narrar a sua irritação pelas redes. Armando-se do smartphone, documentou sons e imagens de festas e DJs que prolongavam a noite sanremesa, numa espécie de diário sonoro. Em suas stories no Instagram ela alternou gravações de música alta, apelos por silêncio e um aviso bem-humorado de que, se a agitação não cessasse, desceria com um megafone para confrontar os foliões.
A situação, no entanto, rendeu um movimento curioso de seguidores: fãs e moradores passaram a apontar e filmar outros supostos festini bilaterali pela cidade, marcando Elettra e transformando seu desconforto numa espécie de mapeamento coletivo do ruído noturno. A cantora reagiu com o tom entre sério e jocoso que lhe é característico, prometendo frear qualquer tentativa de “busseria” — palavra com que, em tom tipicamente bolognese, ela definiu as batidas intempestivas que perturbavam o sono.
Na estratégia clássica de quem quer retomar o controle da narrativa, Elettra tentou a fuga: anunciou com pompa que iria dormir em Montecarlo — a escolha, quase simbólica, de quem prefere a calma dos principados à confusão das noites ligures. Postou um lacônico “Stasera vi frego… sto andando a dormire a Montecarlo. Tiè.” como se fosse um cartaz de resistência. Só que o enredo não mudou: ao chegar ao Principado, de pijama e luz apagada, a artista voltou a ouvir o inconfundível “unz-unz-unz” de pista e definiu o novo ponto de sofrimento como um “focolaio” de festinhas.
O marido de Elettra, o DJ e produtor holandês Afrojack, estava ao lado e confirmou a presença do incômodo com um murmúrio, enquanto a cantora — sempre munida do celular — filmava a vizinhança noturna. O episódio mistura o trivial e o simbólico: de um lado, o desconforto real de quem não consegue repousar; de outro, a narrativa pública de uma estrela que transforma a privacidade em causa coletiva.
Como analista cultural, vejo nesse episódio mais do que uma queixa de celebridade. É um pequeno espelho do nosso tempo: a vida pública que invade a privacidade, a cidade como palco e plateia, e a rede que acelera a denúncia e a solidariedade em tempo real. Há ainda um gesto identitário de Elettra — a lembrança jubilosa da sua bolognesità — que transforma a reclamação numa afirmação de pertencimento e zelo pela própria rotina. E, ironicamente, a canção que a trouxe a Sanremo, Voilà, parece ter virado trilha sonora de uma noite que ninguém quer que acabe.
No fim, resta a imagem de uma artista moderna: não apenas confrontando o ruído, mas reescrevendo a cena — do Ariston a Montecarlo — como se cada story fosse um plano de um filme sobre a cidade contemporânea. E se o megafone chegar a soar, que seja pelo direito ao descanso e pela alegoria de que, mesmo em meio ao festim, a privacidade tem trilha sonora própria.






















