Por Chiara Lombardi — Em um movimento que reconstrói parte do roteiro histórico da arte europeia, o Estado italiano comprou por 14,9 milhões de dólares o pequeno painel conhecido como Ecce Homo atribuído a Antonello da Messina. A transação, confirmada pela casa de leilões Sotheby’s, foi concretizada pelo Ministério da Cultura por meio do Direttorato Generale dei Musei.
A notícia foi inicialmente adiantada pela Fondazione Federico Zeri de Bolonha, que publicou em suas redes que o quadro “é propriedade do Estado”. Segundo fontes próximas ao leilão, a obra estava estimada entre 10 e 15 milhões de dólares, mas o governo italiano agiu antes dos lances formais, assegurando o painel ainda antes que o martelo começasse a ditar o preço final.
Trata-se de um painel dupla-face, concebido para devoção privada: de um lado, o comovente rosto do Ecce Homo emergindo da penumbra, com olhos inchados e marcas de sangue da coroa de espinhos; do outro, a figura austera de São Jerônimo penitente em um deserto simbólico. Juntas, as duas imagens compõem um pequeno objeto que é ao mesmo tempo inventiva pictórica e testemunho físico da fé — um espelho do nosso tempo em miniatura.
Federico Zeri foi quem primeiro atribuiu a obra a Antonello da Messina, ainda nos anos 1980, classificando-a como “uma obra juvenil até então desconhecida da literatura artística”. Pintado por volta de 1460, após o retorno do artista à sua Messina natal, este painel parecia ser o último Ecce Homo de Antonello ainda mantido em colecionismo privado — um detalhe que potencializa seu valor histórico e simbólico.
A escassez de peças de Antonello é notória: apenas cerca de quarenta pinturas do mestre siciliano chegaram até nós. As demais versões do tema estão em museus renomados — o Metropolitan Museum de Nova York, o Palazzo Spinola em Gênova e o Collegio Alberoni em Piacenza — enquanto uma quarta versão, conhecida apenas por fotografias, perdeu-se ao longo do tempo.
O painel já integrou mostras importantes, tendo sido exibido no Met, nas Scuderie del Quirinale e no Palazzo Reale, em Milão. Sotheby’s havia informado que a obra já havia sido requisitada para a grande exposição sobre Antonello programada para 2028 no Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, em Madri.
Mais do que uma simples compra, a aquisição pelo Ministério da Cultura é um gesto que reposiciona a peça dentro do contínuo público de memória: recuperar para o Estado uma obra concebida para a intimidade devocional é também um ato de reedição coletiva da paisagem cultural. Como analista, vejo nesse episódio o encontro entre política cultural e a semiótica do património — um reframe que transforma um objeto privado em patrimônio compartilhado, pronto a ser lido nas salas de museu e nos próximos roteiros curatoriais.
O que permanece é a potência da imagem: o Ecce Homo de Antonello, com seus olhos vermelhos e a dor translúcida, continua a falar conosco, atravessando séculos como um roteiro oculto sobre sofrimento, devoção e representação. Agora, sob tutela pública, sua voz terá um novo palco — e um novo público, convocado a contemplar a obra não apenas como relíquia, mas como espelho do nosso tempo.





















