Por Chiara Lombardi — No mosaico sempre mutante da televisão italiana, alguns espelhos continuam a refletir um tempo que julgamos ter vivido apenas uma vez. Na edição de Domenica In dedicada às memórias do Festival de Sanremo, Mara Venier optou por um repertório de certezas: nomes consagrados e canções que funcionam como cápsulas de memória coletiva.
Enquanto, segundo o vazio estratégico do presente, Carlo Conti privilegia para Sanremo intérpretes com grande amplitude nas redes sociais — uma decisão pensada para obter maior alcance e ressonância digital — Mara seguiu pela trilha do usado seguro. Reunir Iva Zanicchi, Mal dei Primitives, Maurizio Vandelli, Bobby Solo e i Dik Dik no mesmo palco cria um efeito que vai além da simples lembrança: é um reframe da nossa memória cultural.
Iva Zanicchi, sem filtro, deixou escapar uma menção a “Baggina” — na gíria referindo-se ao Pio Albergo Trivulzio, onde a cena dos «veggiòn» é parte da paisagem urbana milanesa — e o comentário soou tão autêntico quanto controverso. Foi Iva a palavra autorizada a dizer aquilo; a plateia reviveu o tom e a personalidade que a tornaram uma presença duradoura na canção italiana.
Mal dei Primitives trouxe à tona uma história que parece saída de um roteiro antigo, um desses detalhes que escorrem entre o palco e a vida: quando dividiria o palco com Luciano Tajoli, soube apenas do expediente dramático que atraía empatia do público. Tajoli, com dificuldades físicas devido à poliomielite, usava uma cadeira para se apoiar e, em cena, simulava uma queda — gesto que mexia com a audiência e garantia aplausos emocionados. Naquele Sanremo, Mal chegou sem cadeira. O relato, entregue com aquela cadência de quem viveu o pop como pequenas peças de teatro, foi um momento de verdade histórica.
Bobby Solo foi o mais nostálgico, ao ponto de encenar um inglês à la Alberto Sordi e tropeçar em lembranças pessoais e lapsos da memória, sendo gentilmente contido por Mara Venier. Há uma delicada tensão entre a celebração e o desgaste da fama quando se revisitamos esses ícones: a nostalgia funciona como um espelho do nosso tempo, mas também revela os contornos da fragilidade humana.
Os Dik Dik, por sua vez, lembraram que a fortuna de algumas bandas italianas dos anos 60 residia em traduzir e reimaginarem hits anglo-saxões: de “A Whiter Shade of Pale” a “California Dreamin'” e “Wight is Wight” — transformações musicais que, aos olhos de então, pareciam criações autorais genuínas, resultado de um país ainda provincialmente conectado ao inglês e aos cânones internacionais.
Em tom de pós-espetáculo, Mara deslocou a conversa para a tragédia de Crans-Montana, convidando o advogado Antonio De Rensis. A presença do profissional, que aos poucos transita do papel de defensor para o de comentarista, mostrou como a televisão contemporânea recicla vozes e lhes dá novos rótulos — bem-vindo ao clube dos opinionistas, declarou com ironia a apresentadora.
No final, a transmissão ofereceu mais que nostalgias: apresentou um pequeno estudo sobre a indústria cultural italiana, seu arquivo afetivo e o roteiro oculto que governa o retorno dos velhos ídolos. Em tempos em que o presente é medido por cliques, a escolha de revisitar o passado se revela um gesto de resistência sensorial e um convite a reconsiderar o que guardamos como patrimônio sentimental.






















