Quando as estatuetas forem entregues em 15 de março, não serão apenas os filmes do ano a disputar a atenção — haverá também um duelo de personalidades que se transformou em pequeno espelho do nosso tempo. De um lado, Leonardo DiCaprio, símbolo de sex appeal e engajamento público; do outro, Timothée Chalamet, ídolo do marketing contemporâneo e intérprete metamórfico. Na narrativa desta noite, os flashes não iluminam apenas o tapete vermelho, iluminam um roteiro oculto sobre identidade e representatividade.
Entre os dois, as afinidades são raras. O que os liga é mais um entrelaçar de memórias de set: ambos passaram por trabalhos de Woody Allen — Un giorno di pioggia a New York no caso de Chalamet, e um episódio em Celebrity para DiCaprio — mas os gestos de afastamento são distintos. Chalamet chegou a renegar o filme e o diretor com certa ingratidão, enquanto o percurso de DiCaprio sempre pareceu uma colagem contínua de escolhas calculadas e paixões artísticas.
O duelo evocará grandes noites de gala do passado — como quando, em 1939, Robert Donat superou o Clark Gable de O Vento Levou, ou quando Gary Cooper venceu Orson Welles em 1941. Há uma linha histórica que passa por reviravoltas: Borgnine sobre James Dean (1955), a revanche de Yul Brynner, Peter Finch em 1976 contra De Niro e Giannini, até Russell Crowe em 2000 frente a Tom Hanks. Essas vitórias inesperadas são como cortes de montagem: revelam tanto o juízo da época quanto a textura cultural que o prêmio acaba por cristalizar.
Hoje, o jovem de 30 anos Timothée Chalamet — cuja trajetória pop o levou de interpretações quase camaleônicas (mencionado em alguns perfis como o Dylan de um filme apelidado de A complete unknown) a sucessos de bilheteria como Dune e Wonka — personifica uma nova modalidade de estrela. Ele mistura o ethos do Actor’s Studio clássico — a entrega, a presença quase devocional — com um apetite por reinvenção que o mercado adora. Em Marty supreme, sua performance se equilibra entre o humano e o algoritmo, um ping-pong interpretativo em que a tecnologia é coadjuvante e o ator, protagonista.
Do outro lado, o veterano Leonardo DiCaprio, hoje com 51 anos, carrega a aura do sex symbol contemporâneo e a legitimidade de quem construiu uma carreira de resistência ao redor de grandes diretores — de Scorsese a Paul Thomas Anderson. Filho de uma herança ítalo-americana, o percurso de DiCaprio começou na televisão infantil e evoluiu para papéis que definiram eras: de Titanic a Romeo + Juliet, até a consagração com o Oscar por The Revenant.
Ambos merecem o reconhecimento, ainda que por razões diferentes. Chalamet é o ator que busca a transformação como forma de autorretrato; DiCaprio é o intérprete que traduz o eco cultural de gerações inteiras e soma sua voz a causas ambientais com visibilidade e perseverança. A disputa, em última instância, não é apenas sobre quem leva a estatueta: é sobre qual figura representará melhor o roteiro que estamos contando sobre o cinema hoje.
Na noite de 15 de março, quando as luzes se fecharem e o envelope for aberto, o resultado será menos um veredicto técnico e mais um reflexo do Zeitgeist. Será a tela onde se projetam desejos coletivos, estratégias de carreira e o sentido contemporâneo do estrelato. Como toda grande cena, o que ficará não é apenas quem ganhou, mas as imagens e narrativas que permanecerão na memória cultural.






















