Por Chiara Lombardi — David Byrne voltou à Itália após oito anos e trouxe aos palcos milaneses um espetáculo que foi, ao mesmo tempo, festa e reflexão. Aos 73 anos, o ex‑genial líder dos Talking Heads comprova que o tempo, com ele, desliza como num plano bem coreografado: breve, preciso e cheio de camadas.
No Teatro Arcimboldi, em duas noites eletrizantes, Byrne apareceu vestido inteiramente de azul — um terno que lembrava o uniforme operário — e comandou uma banda propositalmente “scomposta”: bateria não fixa ao chão, músicos em movimento e quatro bailarinos que se desmembravam e se recompunham, por vezes alinhando‑se atrás do frontman, como se ele fosse um moderno flautista de Hamelin. A cena trouxe à tona a semiótica do espetáculo: a coreografia era, além de entretenimento, metáfora da fragmentação e reconciliação social que atravessa nosso tempo.
Musicalmente, o concerto circulou entre os ritmos sul‑americanos que marcaram a carreira solo de Byrne e os hinos nervosos do período Talking Heads. Houve momentos de riso — quando ele rememorou passagens da sua própria pandemia — e instantes de seriedade pungente: imagens de protestos contra o Ice passaram ao fundo do palco e houve um claro e comovente tributo à nossa Resistência. Esse gesto político, inserido no corpo do espetáculo, transformou a apresentação num espelho do presente, um reframe que conecta palco e cidadania.
Impossível permanecer sentado — como anunciado —: a plateia converteu‑se numa bolgia que evocava a cena underground nova‑iorquina dos anos 80, tão cara ao universo estético de Byrne. Quando explodiram clássicos como Psycho Killer e a concluidora Burning Down the House, o teatro vibrou numa fusão de música e performance em completa simbiose. O roteiro oculto da noite mostrou que, para Byrne, espetáculo e mensagem caminham lado a lado.
O que se viu em Milão não foi apenas um retorno de um ícone pop: foi uma lição de como atravessar décadas sem perder a capacidade de surpreender e de provocar pensamento. Byrne continua sendo um diretor de cena da memória coletiva, capaz de traduzir ritmos, imagens e símbolos em um discurso que pulsa entre a celebração e a crítica. Em suma, uma noite em que o som foi arte viva e o palco, um cenário de transformação.
Data do espetáculo: 22 de fevereiro de 2026. Local: Teatro Arcimboldi, Milão.






















