Por Chiara Lombardi — Há um momento em que a sátira deixa de ser apenas riso e passa a funcionar como um espelho do nosso tempo. Foi assim com a icônica máscara de Valentino criada por Dario Ballantini para Striscia la Notizia, nascida em 1998: uma farsa tão bem construída que desmontou fronteiras entre realidade e representação.
Aquela bocca cerrada, o olhar carrancudo e uma altivez que parecia esculpida em mármore tornaram-se instantaneamente reconhecíveis. Ballantini não só imitava a figura do estilista, ele a encenava em público com tal precisão que houve quem o tomasse pelo próprio Valentino. Entre os episódios mais curiosos, o ator relembra que Calvin Klein chegou a procurá‑lo para cumprimentá‑lo; e, mais inacreditável ainda, uma atriz de Bollywood, em Cannes, insistiu em posar para um ensaio fotográfico com ele — levando para a Índia imagens em que o falso Valentino passava por autêntico.
A criação da personagem não foi um acaso feliz, mas uma necessidade criativa. Em um período de crise da atração, quando os personagens em estúdio não surtiam efeito, Ballantini e os autores decidiram testar uma figura que funcionasse no meio do público e em eventos sociais. A escolha pela alta costura fez sentido: seria ali, entre tapetes vermelhos e vernissages, que a caricatura ganharia suas cores. Nasceu assim um novo tipo de televisão — a comicidade de rua, encenada e maquiada — que trouxe para a programação uma dramatização performática do universo do entretenimento.
Sobre a reação do próprio estilista, Ballantini recorda uma curva de aceitação. “No começo ele talvez estivesse um pouco incomodado”, conta, “mas depois passou a apreciar. Era amante das artes e chegaram até a comentar meu trabalho pictórico. Chegou a dizer que eu lembrava dele quando jovem”. O encontro entre os dois aconteceu apenas uma vez e com um toque de ironia quase cinematográfico: foi na estreia de um filme internacional, quando Ballantini estava maquiado como Valentino Rossi. O fashion designer deu-lhe um tapinha no ombro e saiu por cima na pequena disputa de identidades.
Os registros e memórias se multiplicam como cenas de um roteiro: viagens em que Ballantini embarcou ainda com a maquiagem do estilista, encontros em bastidores com figuras da moda — de Cavalli a Fiorucci — e, claro, as gargalhadas de Giorgio Armani em inúmeros sketches. Para além da anedota, há aqui um fenômeno interessante: a transformação da imitação em obra performática que questiona fama, autenticidade e a semiótica do viral.
Hoje, olhar para essa trajetória é ler o roteiro oculto de uma época em que a televisão reescreveu seus atores na rua, e em que um artista que pinta e encena conseguiu, por alguns instantes, ser confundido com uma lenda da moda. Essa é a potência da imagem bem construída — e da nossa propensão a acreditar no que o espelho nos devolve.





















