Por Chiara Lombardi — Em um gesto que parece extrair imagens sonoras de uma expedição mística, Dardust — o alias artístico de Dario Faini — apresenta nesta semana o seu Concerto para pianoforte e orchestra no histórico Teatro Dal Verme de Milão. O programa, encomendado pelos Pomeriggi Musicali, nasce de um percurso íntimo e sensorial: um relato em três movimentos que traduz, em timbres e ritmos, a experiência espiritual vivida por Faini durante uma viagem à Amazônia.
O compositor descreve a obra como “um caminho em notas: o eu que se destrói para depois se recompor em harmonia”, marcado pela presença ritual dos cantos xamânicos. Essa matriz primitiva coexiste, de forma calculada, com as pulsões eletrônicas que habitam a estética de Dardust: o finale, por exemplo, estará em 7/8, um compasso que remete ao universo da música eletrônica e que nascerá em diálogo direto com as texturas orquestrais. Em um gesto de ousadia que reconfigura fronteiras, haverá também — segundo o próprio compositor — uma voz rap gravada, possivelmente uma primeira incursão desse tipo numa sala do cânone clássico.
A trajetória de Faini ilumina por que essa travessia sonora faz sentido. Mais conhecido do grande público por sua assinatura em sucessos pop — escreveu para Mahmood, Elisa, Elodie e Giorgia, venceu o Festival de Sanremo com “Soldi” (interpretada por Mahmood) e compôs “La noia” para Angelina Mango — Dardust traz para a sala de concerto uma poética que já dialogou com o mainstream. Ele também assina o Inno das Olimpíadas de Milano–Cortina: um tema de cinco notas pensado como os cinco anéis olímpicos, onde se encontram a eletrônica, as arquiteturas urbanas de Milão e a orquestra que simboliza a natureza de Cortina.
Nos bastidores desse percurso, episódios formadores: a primeira vez no palco do Ariston como maestro para Mahmood, a colaboração com Giorgia — cuja voz ele chama de “incrível” — e a profunda marca deixada por Elisa. No ano anterior, acompanhou Jovanotti ao piano no mesmo festival, mas confessa um certo desconforto com o formato televisivo: “odeio a tv e os ritmos da diretta: em três minutos você tem de dar tudo; vira esporte, perde-se o traço de arte”.
O piano foi a primeira vocação de Faini, nos dias de formação em Ascoli, no rigoroso Istituto Spontini — onde, recorda, sentia literalmente o corpo reagir antes das lições. Uma anedota curiosa: numa aula em que o professor faltou, quem o substituiu foi um colega mais velho chamado Giovanni Allevi. Essa biografia, pontuada por encontros e influências — de Giorgio Moroder a Ennio Morricone — desenha um artista cujo centro é a contaminação, o risco e a experimentação.
O concerto no Dal Verme promete, portanto, mais do que um evento: é um pequeno manifesto sobre como a música erudita pode absorver e reelaborar as urgências e referências do presente. Como um filme que transpõe memórias em imagens, este concerto traduz um eco cultural — o roteiro oculto da sociedade — onde Amazônia, eletrônica e tradição sinfônica se confrontam e se transformam.





















