Por Chiara Lombardi — Em 1994, após a consagração de Pulp Fiction, Quentin Tarantino viveu um período de intensa atividade criativa: em 1995 dirigiu um episódio de E.R. – Medicos in Prima Linea, atuou em Destiny Turns on the Radio e fez uma ponta em Desperado, de Robert Rodriguez. Com Rodriguez, compartilhou também o projeto coletivo Four Rooms (1995). Foi nesse contexto de efervescência que, no início de 1996, surgiu uma obra destinada a perturbar expectativas e a reescrever regras de gênero: Dal tramonto all’alba/From Dusk Till Dawn, lançado nos EUA em 19 de janeiro de 1996 (chegando ao Brasil apenas no começo de 1997).
Escrito por Quentin Tarantino (a partir de uma história de Robert Kurtzman) e dirigido por Robert Rodriguez, o filme é um exercício de instabilidade programada. Mais do que fundir gêneros, ele constrói um dispositivo narrativo que funciona como uma armadilha perceptiva: o espectador é convidado — quase forçado — a renegociar expectativas a cada corte, como se a narrativa fosse um espelho deformado do próprio gosto por categorização. A famosa guinada de gênero no meio do enredo não é um truque isolado, mas o ponto alto de uma estratégia que transforma a descontinuidade em método.
A primeira parte do filme tem aparência de thriller de fuga: os irmãos criminosos Seth e Richie Gecko, interpretados por George Clooney e pelo próprio Quentin Tarantino, escapam após um roubo sangrento no Texas. Seth é o profissional frio e carismático; Richie, um sociopata cujo frágil contato com a realidade se mistura a fantasias perigosas. Cruzando a fronteira com o México, eles sequestram a família Fuller — Jacob (Harvey Keitel), um ex-pastor em crise de fé após a perda da esposa, e os filhos Kate (Juliette Lewis) e Scott (Ernest Liu) — e os obrigam a levá-los até o Titty Twister, um strip-club ermo onde Carlos (Cheech Marin) prometeu entregar o dinheiro do roubo e a chance de fuga.
No entanto, o que começa como um road movie violento e desesperado se transforma brutalmente: o dito strip-club revela-se um covil de vampiros. A entrada em cena de Santanico Pandemonium, encarnada por Salma Hayek, como sacerdotisa sedutora do local, deflagra uma orgia de horror que devora quase todos — incluindo figuras de apoio memoráveis como Frost (Fred Williamson) e o icônico Sex Machine (interpretado por Tom Savini, mestre dos efeitos de maquiagem). A barreira física do clube torna-se metáfora: os personagens se veem encurralados até o confronto final que expõe o Titty Twister como um antigo templo de sangue.
O filme funciona em camadas: é entretenimento de choque, pastiche de exploitation e, ao mesmo tempo, um comentário sobre o imaginário da fronteira — aquele limiar entre civilização e caos que a cultura norte-americana sempre projetou para o sul. Em termos de carreira, Dal tramonto all’alba cristalizou a imagem plural de seus autores: a ludicidade polifônica de Tarantino e a habilidade de Rodriguez em orquestrar um espetáculo de gênero. Para atores como George Clooney e Salma Hayek, o filme consolidou trajetórias, ainda que de maneiras distintas — Clooney como anti-herói carismático; Hayek como figura de desejo e perigo, um arquétipo que abriria debates sobre representação e exotização.
Como observadora cultural, vejo em Dal tramonto all’alba algo além do choque: um pequeno espelho do nosso tempo e do roteiro oculto da sociedade — onde o riso e o horror se entrelaçam, expondo medos coletivos sobre violência, sexualidade e a fronteira. A película nos pede que lemos o espetáculo não só como fuga, mas como sintoma: o que nossos gostos por violência e por guinadas narrativas dizem sobre o ecossistema cultural em que vivemos? O filme continua relevante porque não se contenta em ser apenas um espetáculo; ele é um reframe da realidade de consumo — uma obra que nos obriga a perguntar, em cada cena, quem somos nós enquanto audiência.
Dal tramonto all’alba comemora 30 anos não apenas como relíquia dos anos 90, mas como um artefato que mantém sua capacidade de desestabilizar — e por isso mesmo, de iluminar. O Titty Twister permanece na memória como um cenário de transformação: um templo onde a cultura pop sacrifica suas certezas e revela seu lado mais inquietante.





















