Por Chiara Lombardi — No ritmo contido de um diretor que conhece a anatomia do clássico, Peter Stein levou ao Teatro Donizetti uma tríade de pequenas calamidades sentimentais: Crises de nervos. Até 25 de janeiro, o público bergamês assiste a três atos únicos de Tchekhov — “O Urso” (L’orso), “Os Danos do Tabaco” (I danni del tabacco) e “O Pedido de Casamento” (La domanda di matrimonio) — montados com uma elegância que prefere a sobriedade ao espanto fácil.
Se o cinema de Almodóvar celebra o colapso emocional em cores fortes, a cena de Stein explora o mesmo abismo com luz controlada e economia de gesto. Não há exageros: o fio que une as três peças é uma dose generosa de loucura patológica — viemos para rir e nos inquietar. Uma viúva é desafiada a duelo por um homem rude que, de repente, troca a ameaça pela paixão; um orador confessa ao público sua vida doméstica devassada por ataques de pânico; e um casal prestes a casar se arrasta num duelo verbal que expõe fragilidades físicas e psicológicas.
O material dramatúrgico de Tchekhov é extraordinário e perigoso — porque roça o grotesco. A aposta de Stein exige intérpretes acurados e ele os encontra em um elenco em estado de graça. À frente, Maddalena Crippa, a grande dama do teatro, domina a cena com precisão lírica. Ao seu lado, Alessandro Averone, Sergio Basile, Gianluigi Fogacci — cuja performance solo em “Os Danos do Tabaco” mereceu uma ovação — Alessandro Sampaoli e Emilia Scatigno compõem um quadro humano crível e cortante.
Na noite de estreia, o Donizetti esteve repleto. O riso do público surge sem condescendência: há leveza, mas não há pó sobre as tábuas — a montagem respeita filologicamente o autor e a época em que as peças nasceram. É uma posição oposta à de quem moderniza sem medo: a atual circulação do “Gabbiano” — dirigida por Leonardo Lidi e elogiada por críticos como Franco Cordelli — mostra que o teatro clássico comporta múltiplos reencenamentos. Stein prova que a historicidade e a contemporaneidade podem coexistir quando a direção sabe esculpir o tempo.
Como analista cultural, vejo essa montagem como um espelho do nosso tempo: o riso tchekhoviano reflete o roteiro oculto das ansiedades modernas, e a sobriedade de Stein funciona como uma lente que reframe a cómica tragédia humana. A peça confirma uma lição simples do palco: o clássico é matéria maleável, e a direção é a mão que o modela para que continue ressoando, século após século.
Informações práticas: Crises de nervos — Três atos únicos de Anton Tchekhov, direção de Peter Stein, Teatro Donizetti, em cartaz até 25 de janeiro. Elenco: Maddalena Crippa, Alessandro Averone, Sergio Basile, Gianluigi Fogacci, Alessandro Sampaoli, Emilia Scatigno.






















