Por Chiara Lombardi — Há algo de curioso e revelador em ver três jovens do sul da Itália atravessarem o mapa emocional e geográfico até o extremo norte europeu. Ciao Rakas!, minissérie italo-finlandesa que estreou nas festas na televisão pública finlandesa Yle e em sua plataforma de streaming, propõe esse encontro como um pequeno espelho cultural: três napolitanos falando em napoletano, legendados em finlandês, confrontam-se com um território que parece saído de outro planeta — a Lapônia — e com costumes tão diferentes que geram humor, encanto e, por vezes, um frisson de deslocamento.
A premissa é ao mesmo tempo simples e romanticamente bem trabalhada: Carmine, um jovem trambiqueiro, herda uma baita na Lapônia do irmão mais velho. Para vendê-la, contudo, precisa primeiro viver no local por pelo menos dois meses. Ao chegar a Inari, no extremo norte finlandês, acompanhado de dois amigos — interpretados por Gennaro Lucci e Nicolò Galasso —, Carmine descobre que a morte do irmão talvez não tenha sido um acidente e cruza o caminho de uma bela criadora de renas da população Sami. A série mistura o tom de comédia com retalhos de mistério e de romance, numa costura que lembra, em alguns traços, o encontro cultural visto em Lilyhammer, mas com um regime estético próprio e um ritmo íntimo.
O rosto central desta travessia é Erasmo Genzini, 34 anos, nome já visto em produções como Mina Settembre e La voce che hai dentro. Genzini passou um mês em Inari para as filmagens e conta que a experiência foi, ao mesmo tempo, desconcertante e profundamente sensorial: “Quando cheguei, sofri com o sol que nos acompanhava 24 horas — naquela época não havia noite —, mas logo depois isso se tornou um presente. Senti-me conectado com a natureza e com os sons daquele lugar, onde não existe o caos das metrópoles; foi mágico.”
O contraste entre a energia caótica de Nápoles e a “paz e silêncio” das paisagens laponesas é, segundo Genzini, uma das chaves da série. A curiosidade sobre como três rapazes do sul se virarão num cenário tão outro é o motor narrativo que, do ponto de vista finlandês, permite ver aquelas terras remotas através de olhos estrangeiros. Muitas cenas entre os personagens foram improvisadas; os atores, que se conheceram no aeroporto rumo à Finlândia, revelam uma sinergia natural que rende momentos de humor genuíno — incluindo o episódio (para os padrões italianos, quase sacrílego) da infame pizza com abacaxi (ananas) provada na Finlândia.
Alguns espectadores finlandeses comentaram nas redes sociais sobre o risco de estereótipos — um receio legítimo quando se exporta uma linguagem tão identitária quanto o napoletano. A resposta de Genzini é direta e leve: “Risco de clichê, mas nenhuma ofensa — deve ser levada com leveza” (original: «Rischio cliché ma nessuna offesa, va presa con leggerezza»). É uma posição que pede ao público o que toda boa comédia cultural pede: sensibilidade e humor crítico, olhar que reconhece a referência sem reduzi-la.
Além de dar visibilidade à face mais humana e falível do protagonismo napolitano, Ciao Rakas! funciona como um pequeno laboratório de contato cultural — um reframe em que as diferenças não são apenas piada, mas matéria-prima para reflexões sobre identidade, pertença e adaptação. Em termos práticos, a minissérie também abre portas para um público internacional enxergar a Itália fora dos clichês turísticos, enquanto devolve ao espectador italiano uma imagem inédita do norte europeu, atravessada por tradições ancestrais como as da comunidade Sami.
Erasmo Genzini seguirá, na sequência, em projetos como o filme da Rai La promessa di Patrizio e a série Roberta Valente — Notaio a Sorrento, um lembrete de que o percurso entre a interpretação íntima e a cartografia do global permanece fértil para quem se dispõe a atravessá-lo.
















