Por Chiara Lombardi — Em uma escolha que funciona como um espelho do nosso tempo, Chiello não foge do conflito pessoal ao subir no palco: ele o convida. Rocco Modello, conhecido artisticamente como Chiello, chega a Sanremo com a canção “Ti penso sempre” e um projeto maior — o álbum “Agonia”, previsto para março — cujo título já aponta para um roteiro interno, quase cinematográfico, de luta e contradição.
O passado do artista — dos primeiros passos no universo urban/rap com o coletivo Fsk até a metamorfose para um cantautorado de traços rock — é parte do cenário que o molda. A estética, com jaqueta de couro e botas que rememoram os anos 2000 e a New York dos Strokes, é apenas a primeira camada. Foi a convicção da sua banda que o levou até Minneapolis, aos Pachyderm Studios, estúdio associado a Steve Albini, nome ligado à produção de bandas como Nirvana e Pixies, onde gravou o novo disco.
Se, externamente, a escolha de competir em Sanremo parece um movimento de exposição calculada, há algo de mais íntimo nessa decisão. Chiello confessa que participou do festival para se testar: “Não me importa o julgamento dos outros; tenho mais medo de decepcionar a mim mesmo. Espero até chegar em último.” Essa franqueza traz à tona o que chamo de reframe — o artista que transforma o palco em laboratório de identidade.
Entre as decisões do repertório, surge aquela que provoca o debate: para a serata dei duetti ele chamou Morgan para interpretar com ele o clássico de Tenco “Mi sono innamorato di te”. A escolha, arriscada por motivos que não são apenas artísticos, reacende memórias de episódios anteriores — seis anos desde o episódio com Bugo — e incide sobre uma situação judicial ainda em curso, referente a acusações de stalking.
“O convidei porque o estimo como artista”, diz Chiello. O elogio recai sobre o álbum de Morgan, “Canzoni dell’appartamento”, descrito por ele como um dos discos lendários da música italiana. Aqui está a tensão: separar a obra do criador ou integrá-las numa única narrativa? É um dilema que não cabe só ao público, mas ao próprio tempo cultural que nos define.
O novo álbum “Agonia” é definido por Chiello como uma exploração do conflito interno mais do que uma ode à dor. O termo, com raízes existenciais, aponta para uma luta íntima que ele ainda tenta compreender. Musicalmente, o disco representa sua viagem do rap urbano para um cantautorato de guitarra e atitude, um movimento que revela o artista buscando linguagem e perímetro expressivo.
Além do palco de Sanremo, Chiello já mostrou seu humor e performance em programas de TV, mas é no festival que ele pretende testar a resiliência do seu novo repertório e, talvez, redefinir a narrativa pública em torno de sua persona. É difícil não perceber, nessa escolha de dividir o palco com Morgan, um gesto que mistura reverência estética, risco calculado e um olhar sobre como a cultura pop reescreve seus protagonistas.
Esse episódio é mais do que uma nota de entretenimento: é um fragmento do roteiro oculto da sociedade contemporânea, onde reputação, arte e processos pessoais se encontram num palco único. Resta ver se, como em um bom filme, a cena culminará em aclamação, controvérsia ou reflexão coletiva.
Data da entrevista no texto: 9 de fevereiro de 2026.






















