Por Chiara Lombardi — Em uma cena que parece extraída do roteiro oculto da nossa época, Chiara Caselli retorna ao centro do debate cinematográfico não só como intérprete, mas como uma voz que reflete sobre os limites do trabalho artístico. Ela é, atualmente, a única atriz italiana em competição na Berlinale, com o filme Nina Roza, dirigido por Geneviève Dulude-De Celles.
No longa, Caselli interpreta uma gallerista italiana instalada na Bulgária, fascinada pela pintura visceral de uma menina cujo gesto remete à energia de Pollock. A trama — que lembra, em sua dramaturgia subterrânea, o mundo de Mia Hansen-Løve em O Pai dos Meus Filhos — acompanha um curador que volta à Bulgária para investigar se a criança é um prodígio genuíno ou uma farsa. “É um cinema que se move por soterradas motivações internas”, comenta Caselli, lembrando a elegância silenciosa de filmes que preferem a tensão contida ao conflito barulhento.
O personagem do curador, vivido por Galin Stoev, e a escolha de escalar duas gêmeas para representar a criança — exigência das regras de set para menores — acentuam a ideia de que o que vemos na tela é apenas a superfície de um trauma ou de um retorno ao passado. Caselli descreve sua personagem como alguém que teme que o talento bruto da menina se reduza a um brilho passageiro, “um fogo de palha”.
Mais do que a projeção no festival, o que me interessa como observadora cultural é o reframe dessa atriz que nunca se limitou à representação: “O mestiere dell’attrice può essere violento”, ela diz, e eu traduzo essa violência como a exigência de expor partes íntimas da alma em nome de um roteiro. Hoje, além de atriz, Caselli é fotógrafa de arte, um deslocamento que explica a necessidade de recuar para poder olhar — e capturar — as superfícies do mundo com um outro tipo de violência, mais controlada, mais contemplativa.
Caselli traça um paralelo entre os festivais: “A Berlinale tem menos paetês do que Cannes”, conta com a leveza de quem conhece o verniz e o contracerne do espetáculo. Recorda um episódio em Cannes, quando chegou atrasada devido a um acidente de carro e correu de salto no tapete vermelho — imagem cinematográfica que, para ela, ainda guarda o sabor do ridículo necessário à própria profissão. Já Veneza é o amor antigo: “Me dá sempre uma ansiedade de dress code. Quando jovem, eu não saía se não tinha a coxa de fora”, confessa, numa mistura de humor e franqueza que desarma qualquer mitologia.
As escolhas íntimas também aparecem: Caselli fala de duas relações significativas — com Jacopo Quadri e Stefano Dionisi —, e celebra amizades que perduram, como a irmã-like Amanda Sandrelli. Sobre os começos, evoca com naturalidade o encontro com Gus Van Sant e Keanu Reeves, quando ainda era uma “pischella” de 23 anos chamada para Belli e dannati, lembrando que a carreira, muitas vezes, parece escrita sem a nossa colaboração.
Há, porém, uma continuidade: a artista que hoje expõe uma sensorialidade fotográfica não se distanciou da potência que a tornou singular como atriz. Pelo contrário, ela redirecionou essa intensidade para um olhar que fotografa o tempo — uma espécie de espelho do nosso tempo, onde a narrativa visual reconstrói memórias e reconfigura afetos.
Em tempos em que o cinema busca novas arquiteturas emocionais, a presença de Chiara Caselli na Berlinale funciona como um lembrete de que a atuação é um instrumento de risco e que a arte, nas suas múltiplas formas, continua a oferecer reframes capazes de transformar nosso entendimento do que é verdadeiramente humano.






















