Adriano Celentano, o eterno Molleggiato, reapareceu nas redes sociais em uma breve e afiada intervenção que já parece cena ensaiada de um roteiro que mistura memória e provocação. No Instagram, Celentano publicou um vídeo embalado por “Soli”, que percorre imagens ao vivo da Arena di Verona durante o histórico evento Rock Economy de 2012 e se encerra com uma fotografia atual do cantor. A mensagem que acompanha o post — “Potrei anche peggiorare … ma non ve lo garantisco!” — é tão típica do artista quanto sua postura: enigmática, irônica e deliberadamente inconformista.
Aos 87 anos, Celentano reafirma em poucos segundos aquilo que já sabemos: sua presença pública não é apenas um ato de nostalgia, mas um gesto performático que reinstala, de forma surpreendente, o seu caráter rock’n’roll no presente. A escolha de imagens do Rock Economy funciona como um recurso de recontextualização — um flashback que se encontra com o now — e nos lembra que alguns artistas não envelhecem; eles reaparelham sua imagem para continuar falando com a contemporaneidade.
Enquanto muitos celebram reaparições como simples sinais de atividade, prefiro ver esse vídeo como um pequeno manifesto. Celentano manipula o tempo narrativo: a trilha sonora, as cenas ao vivo da Arena di Verona e a foto atual convergem para criar um espelho do nosso tempo em que a velhice não é apenas declínio, mas dispositivo estético e político. Ao dizer que pode “peggiorare”, ele lança uma ironia autodepreciativa que funciona também como uma ameaça suave contra a previsibilidade cultural — um convite a esperar o imprevisível.
Há aqui uma semiótica do viral que vale ser notada. Em vez de recorrer a um anúncio longo ou a um comunicado formal, Celentano opta pelo fragmento: curta duração, alta carga simbólica. É o roteiro oculto da sociedade em miniatura — uma forma de lembrarmos que, mesmo em plataformas digitais onde tudo é efêmero, a imagem bem colocada e a frase certeira podem reconduzir um artista para o centro do debate público.
Para além da anedota, essa reaparição acende questões sobre memória coletiva europeia. Celentano não é apenas um nome: é uma figura que atravessou décadas e modulações culturais, do cinema à música popular. Sua presença nas redes é um lembrete de como o entretenimento opera como arquivo vivo; e de como a Itália, e por extensão a Europa, carrega nesses arquivos lembranças de um tempo em que a performance era também confrontação social.
Em suma, o vídeo de Celentano é uma pequena peça de arte pop que diz muito mais do que sua duração sugere. É um reframe da realidade onde a idade se transforma em ferramenta de estilo, e a provocação em estratégia. Como observadora, vejo nessa reaparição não apenas a manutenção de um ícone, mas o recalibre de uma voz que insiste em ser incómoda e relevante — um verdadeiro espelho cultural dos nossos dias.





















