Por Chiara Lombardi — Em mais um gesto que mistura autoridade artística e afeto público, Adriano Celentano usou sua página no Instagram para declarar apoio a Ermal Meta, concorrente do Festival de Sanremo com a música Stella stellina. O icônico Molleggiato comentou: «Bravo Ermal! La tua canzone è bellissima! E tu l’hai cantata così bene che è quasi impossibile che tu non vinca», mensagem que rapidamente somou milhares de curtidas e foi repostada pelo próprio artista baresiado.
O gesto é simples, mas simbólico: a bênção de uma lenda da canção italiana amplia não só a visibilidade de uma performance, mas reforça o papel do festival como espelho do nosso tempo. Ermal Meta, nascido em Fier (Albânia) e criado em Bari, traz ao Ariston uma composição delicada e política ao mesmo tempo — uma canção sobre uma menina sem nome que representa um povo sem voz. Embora nunca cite diretamente a palavra Gaza, Meta explicou ao Corriere della Sera que a referência existe nas imagens e nas situações evocadas, mas que a escolha deliberada de não nomear visa evitar circunscrever o significado da canção.
A melodia, segundo o cantor, nasceu num gesto íntimo: tocando violão para sua filha, Fortuna Marie, nascida em junho de 2024. Meta conta que, naquela noite, havia visto reels bloqueados no Instagram e foi atravessado pelo olhar de uma menina de Gaza. Depois que a filha adormeceu, desceu ao estúdio e transformou a aflição em música. Esse processo — da imagem viral transformada em composição — é o roteiro oculto que define como a cultura contemporânea traduz sofrimento em empatia artística.
O apoio público de Adriano Celentano funciona como uma espécie de selo cultural: não é apenas uma torcida, é uma leitura do que a canção representa para o presente. Em tempos em que o entretenimento frequentemente se reduce à superfície, gestos assim lembram que uma performance no palco de Sanremo pode ser também um ato de testemunho. A repercussão nas redes reforça o lugar de Meta não só como intérprete, mas como voz que conecta memórias pessoais (a filha, a infância em Bari) a uma cena internacional marcada por conflitos e deslocamentos.
Para quem acompanha o festival, a postagem de Celentano soma-se aos sinais de que Stella stellina é uma das canções mais comentadas desta edição. Não se trata apenas de palpites sobre quem levará o troféu: é a percepção de que certas músicas funcionam como lentes para ler o presente — a semiótica do viral que, por sua vez, redefine a função social da canção.
Ermal Meta, artista moldado entre duas culturas, reafirma com esta canção sua habilidade de transformar dor em narrativa coletiva. E a declaração de Celentano, deixando claro seu entusiasmo, é ao mesmo tempo um incentivo ao público e um lembrete do papel que os artistas podem desempenhar quando a arte decide tomar partido, mesmo que de forma poética e indireta.
Atualizado em 27 de fevereiro de 2026 — a mensagem de Celentano foi publicada e compartilhada poucas horas após a apresentação de Meta, alimentando debates sobre o peso simbólico de Sanremo neste momento cultural.






















