Por Chiara Lombardi — No calor simbólico do palco do Ariston, Caterina Caselli foi homenageada com o Prêmio alla Carriera em Sanremo 2026, e trouxe de volta uma mensagem tão simples quanto potente: “Sentitevi liberi dal giudizio”. Sessenta anos depois de Nessuno Mi Può Giudicare, a canção que a lançou como um espelho do nosso tempo, a cantora e produtora reafirma a urgência da independência do olhar alheio.
Emocionada, Caselli resumiu a própria trajetória com honestidade e gratidão: “Sono stata fortunata nella mia vita, ho avuto incontri importanti che mi hanno aiutato in questo percorso”. A artista recordou os anos em que aprendeu nos bastidores, citando episódios que mostram sua intuição de descobridora — como o momento em que viu Andrea Bocelli migrar do pop para o registro lírico, e a curiosa admiração de Phil Collins: “Ma dov’era nascosto questo qui?”.
Conhecida pelo icônico corte à la garçonne, o famoso casco d’oro, Caselli carrega uma imagem tão simbólica quanto a carreira: uma mulher que atravessou décadas de música e cultura pop tendo um olhar sempre atento ao futuro. Prestes a completar 80 anos (nascida em 10 de abril de 1946), ela mantém a energia de quem continua a escrever o roteiro oculto da sociedade a partir do estúdio e dos palcos.
Filha de um salumiere e de uma magliaia, sua juventude em Magreta, Formigine (Modena) foi marcada por adversidades — o suicídio do pai quando ela tinha quatorze anos. Essa ferida, contudo, tornou-se combustível para uma determinação silenciosa: não se conformar, aprender os ofícios da música e buscar autonomia. Das pequenas bandas em Emilia ao palco do Piper em Milão, Caselli encarnou o espírito libertário dos anos 60, onde cantar e dançar eram atos de afirmação geracional.
A carreira como intérprete rendeu clássicos que ainda reverberam: desde o triunfo no Festivalbar com “Perdono”, passando por participações em musicais da época e canções como “Insieme a te non ci sto più”, que permanecem como pequenas obras-primas pela capacidade de interpretação e elegância estilística. Mas foi nos bastidores — como produtora e diretora musical — que a sua visão mostrou-se decisiva para a cena italiana contemporânea.
O prêmio recebido em Sanremo não celebra apenas uma discografia, mas uma trajetória plural: voz, talento e uma rara capacidade de intuir caminhos. A história de Caselli é a de quem construiu pontes entre eras — do beat ao pop sofisticado, do estúdio às carreiras que ajudou a modelar — sempre com um senso estético preciso e uma confiança no risco criativo.
Mais do que uma reverência, a homenagem em Sanremo foi um convite à reflexão coletiva: a canção de 1966 voltou como um lembrete de que a liberdade de escolher quem somos não perde atualidade. Como uma obra de arte que atravessa gerações, a figura de Caterina Caselli funciona como um espelho do nosso tempo — um convite a ler a cultura pop não apenas como entretenimento, mas como mapa de identidades e memórias compartilhadas.
Ao encerrar seu discurso, Caselli agradeceu a “tutte le persone e a tutti gli artisti da cui ho imparato qualcosa” — um gesto que resume sua ética: o sucesso como resultado de encontros, escuta e coragem para desafiar expectativas. Neste Sanremo, o Prêmio alla Carriera reafirma que, depois de seis décadas, a sua mensagem segue viva e necessária. Sentitevi liberi dal giudizio: uma máxima que, em tempos de julgamentos instantâneos, soa como um refrão de resistência.






















