Por Chiara Lombardi — A residência onde o premiado ator Gene Hackman viveu por décadas — e onde foi encontrado morto menos de um ano atrás — entrou no mercado imobiliário: o imóvel de aproximadamente 1.200 metros quadrados, localizado em Santa Fe, Novo México, está anunciado por US$ 6,25 milhões (cerca de €5,33 milhões).
Situada numa colina coberta por pinheiros e zimbros, no condomínio fechado conhecido como Summit, a propriedade revela, em sua volumetria e acervo de espaços, o gosto pessoal do ator de clássicos como O braço violento da lei e Os implacáveis — títulos que ajudaram a compor o imaginário coletivo do cinema americano. No entanto, a casa agora carrega também a marca de uma tragédia íntima: na noite de 26 de fevereiro, foram encontrados sem vida Gene Hackman, 95 anos, e sua esposa, a pianista Betsy Arakawa, 65 anos.
Segundo os relatos, Hackman, que convivia com Alzheimer, teria morrido por insuficiência cardíaca, em solidão, pouco depois da morte de Arakawa, atribuída à síndrome pulmonar por hantavírus, uma doença transmitida por roedores. As circunstâncias dolorosas explicam o silêncio que agora envolve os cômodos onde o ator apreciava a leitura e o cinema.
Decidida pelos filhos do casal, a venda passou por um processo de despersonalização do imóvel: móveis e objetos pessoais foram retirados e a casa foi reestufada por profissionais para apresentação ao mercado. Os corretores da Sotheby’s International Realty que conduzem o anúncio, Tara S. Earley e Ricky Allen, reconhecem que a natureza trágica do ocorrido pode afastar compradores; ainda assim, conforme apurado pelo Wall Street Journal, o preço pedido é uma avaliação de mercado, sem o adicional que frequentemente encarece imóveis associados a grandes estrelas.
O conjunto residencial inclui, além da casa principal, um green para golfe, um estúdio de artista, uma dependência com três quartos, uma piscina olímpica e uma banheira de hidromassagem. A moradia principal foi remodelada por Hackman nos anos 1990 e, de acordo com a descrição dos agentes, oferece três dormitórios, janelas do chão ao teto, um amplo living com vigas de madeira à vista, uma biblioteca — onde o ator apreciava assistir a filmes — e uma sala de jantar emoldurada por grandes painéis de vidro.
Como analista cultural, vejo nessa venda mais do que um negócio: é um momento de reframe. A casa de um artista torna-se, por um instante, um espelho do nosso tempo — onde memória pessoal e mercado se tentam reconciliar. O imóvel passa das mãos de quem compôs seu interior para aquelas que tentarão conservar ou reescrever sua narrativa arquitetônica. É o roteiro oculto da sociedade: espaços que abrigam uma vida pública e silenciam as suas últimas constatações.
Para quem acompanha a trajetória de Hackman, essa transição imobiliária não é apenas uma cláusula de herança. É um ponto de partida para discutir como preservamos a materialidade da fama e como o contexto histórico — do cinema à saúde pública — deixa marcas indelevelmente gravadas em paredes de uma casa.
21 de janeiro de 2026






















