Em Bergamo, o clássico de Bizet voltou a pulsar no palco do Donizetti numa montagem que equilibra paixão e recato como só as grandes obras sabem fazer. A produção dos Teatri di OperaLombardia apresentou uma Carmen de DNA intenso — calorosa, dramática e capaz de refletir, como um espelho, conflitos íntimos e sociais.
A estreia registrou casa quase cheia e merecidos aplausos. A retomada está programada para domingo, 1º de fevereiro, às 15h30, com mudança de elenco nos papéis principais: a cigana Carmen será interpretada por Emilia Rukavina, Don José por Joseph Dahdah e Micaëla por Alessia Marepeza. Na noite de abertura, os protagonistas foram Emanuela Pascu, Roberto Aronica e Rocío Faus, cujas performances mereceram elogios calorosos do público.
A performance de Emanuela Pascu destacou-se por unir presença cénica e sonoridade opulenta: a mezzosoprano romena ofereceu à sua Carmen a combinação necessária de sensualidade e sensibilidade, encontrando nuances que evitam os lugares-comuns e reforçam a complexidade psicológica da personagem. No palco, o papel transborda de humanidade — e é isso que o público aplaude.
Musicalmente, os coros foram um dos pontos altos: o coro adulto sob a regência de Diego Maccagnola mostrou coesão e tensão dramática, enquanto o coro infantil dirigido por Mario Mora (os Piccoli Musici) confirmou por que é um orgulho musical da cidade. A orquestra, sob o comando do maestro espanhol Sergio Alapont, brilhou sobretudo nos pianíssimos e nas texturas delicadas; contudo, em alguns momentos a partitura exigia um ímpeto mais arrebatador, e faltou um pouco desse ímpeto para intensificar a fúria visceral que Carmen costuma provocar.
Na direção cênica, Stefano Vizioli optou por um tratamento clássico, mas longe da previsibilidade. O regista deslocou a ação oitocentista alguns decénios adiante, inserindo o universo narrativo numa zona de guerra — uma decisão que funciona como um reframe: o conflito íntimo dos personagens ecoa o conflito coletivo, transformando a ópera num reflexo do nosso tempo. As grandes projeções animadas, usadas com bom sabor estético, trazem surpresa e dramaturgia visual sem cair no excesso.
Escolher Carmen para a temporada é um acerto: obra maior que é simultaneamente sofisticada e acessível, dialoga tanto com o aficionado quanto com o neófito. É especialmente significativo ver jovens no público, acompanhando pais e avós, numa cena que lembra a transmissão intergeracional da memória cultural — o roteiro oculto que mantém viva a tradição lírica.
Em contexto institucional, a Fundação Teatro Donizetti abriu também as celebrações pelo trigésimo aniversário da morte do maestro Gianandrea Gavazzeni com um concerto do Marangoni’s Quartet. A formação, composta por flauta, violino, violoncelo e piano, dedicou sua apresentação à recente perda do crítico musical Angelo Foletto, cuja paixão e erudição marcaram a crítica italiana contemporânea.
Entre aplausos e reflexões, a montagem de Carmen no Donizetti confirma-se como um acontecimento cultural que vai além do entretenimento: é um convite a perceber por que determinadas histórias resistem e como elas continuam a se projetar na paisagem emocional coletiva.
Data da apresentação: 31 de janeiro de 2026.






















