Por Chiara Lombardi — Em uma aparição rara como entrevistado, Carlo Conti abriu o arquivo pessoal na tarde de domingo em Verissimo, com Silvia Toffanin, e revelou como a vida pública dialoga com uma história íntima marcada por ausência e devoção. O que surge é um retrato que funciona como um espelho do nosso tempo: a figura do apresentador como produto de uma educação resistente e silenciosa, onde a mãe é protagonista.
Conti lembrou que a palavra “babbo” nunca fez parte do seu vocabulário de infância, porque seu pai morreu quando ele tinha apenas 18 meses. Foi a mãe que o criou sozinha, enfrentando dificuldades econômicas e fazendo “de tudo” para que ele pudesse estudar. “Uma mãe fortíssima”, disse ele, sublinhando que aprendeu com ela o respeito e a honestidade. Ela sonhava com um lugar estável para o filho, talvez um emprego no banco, mas respeitou sua escolha artística. “Se ela já me disse ‘bravo’? Não, nunca. Mas espero que tenha se orgulhado de mim”, confessou.
Essa origem é a chave para entender o estilo público de Carlo Conti: o homem que se autodefine como “rei da normalidade”. Não é apenas uma marca pessoal, é um pequeno roteiro oculto da sociedade italiana — a celebração da modéstia e do trabalho duro que atravessa gerações. Na conversa, ele traça o arco entre a família de origem e a família que construiu: hoje, sua prioridade são a esposa Francesca e o filho Matteo.
Para estar mais presente, Conti tomou decisões profissionais com impacto direto na vida familiar. Ele abriu mão do compromisso diário com o preserale (L’eredità) para focar apenas em programas de prime time, e com isso a família mudou-se para Florença. Ao responder a Toffanin sobre arrependimentos por ter formado família depois dos 50 anos, ele foi categórico: não há remorso. “Cada momento deve ser vivido quando chega. A pessoa certa chegou no momento certo”, disse. A fase inicial do namoro com Francesca teve altos e baixos — ele admite que foi “birichino” — e foi empurrado pela amiga Antonella Clerici a dar o passo definitivo: propor casamento.
Os gestos cotidianos compõem a narrativa da intimidade que Conti cultiva: ele conta que leva o café na cama para a mulher e que pequenas rotinas, como fazer compras juntos no supermercado, são momentos de cumplicidade e felicidade. Essa celebração da normalidade torna-se, nas mãos de Conti, uma estética de vida — o reframe da realidade onde o extraordinário da carreira convive com o comum do cotidiano.
No plano profissional, ele reafirma que nunca correu atrás de palcos como o de Sanremo de forma obsessiva; as oportunidades chegaram naturalmente. Lembra seu primeiro contrato na Rai, em 1985, para o programa Discoring, como ponto de partida de uma trajetória longa. Sobre emoção, Conti afirma ser pouco afeito às manifestações públicas de choro, com duas exceções: a primeira vez no palco do Teatro Ariston em 2015 e outro momento no mesmo palco em 2017 — lembranças que ainda o tocam.
Ao final da entrevista, fica a sensação de que a biografia de Carlo Conti é também um pequeno comentário sobre valores que atravessam a mídia e a vida privada: lealdade, trabalho, escolhas que desenham uma paternidade presente e um lar ancorado na simplicidade. Como um cineasta que escolhe planos fechados para revelar detalhes, Conti opta por mostrar o que há de mais íntimo e humano no roteiro da sua vida.






















