Na primeira noite do Festival de Canção de Sanremo 2026, ao lado de Carlo Conti e Laura Pausini, o ator turco Can Yaman deixou sua marca — não apenas pela presença e pelos aplausos do público, mas também pelo imediatismo com que virou espelho das conversas nas redes sociais.
O intérprete, que trocou recentemente os velhos trajes de Sandokan pela função de co-apresentador, entrou em cena sob ovacionamentos, sobretudo vindos da plateia feminina. Houve até um incidente curioso: uma pessoa na plateia chegou a pedir que ele mostrasse o peito, gesto que, mais que criar um momento de descontração, acabou soando um tanto cringe e gerou constrangimento para o ator.
No entanto, o que aconteceu fora do teatro — no circuito instantâneo das redes sociais — ganhou contornos próprios. Ao lado de comentários elogiosos ao seu físico e de memes sobre a pronúncia correta do nome Can, proliferaram as gozações e as piadas. Entre os exemplos que viralizaram, usuários no X postaram frases incisivas: “A Sanremo com Can Yaman teve de distribuir mais preservativos do que na vila olímpica” (post de @Kotiomkin) e “Agora sabemos por que nos filmes ele é dublado até quando boceja” (@SirDistruggere), alfinetando a questão da dublagem.
Outro fio narrativo que emergiu foi a fixação sobre o visual: o torso brilhando com óleo e o bronzeado. Brincadeiras como “Can Yamal está untado com óleos obtidos por processos mecânicos de azeitonas extra UE” (@maurizioneri79) e vídeos que supostamente mostravam uma disputa por spray de bronzeamento entre Can Yaman e Carlo Conti (@marcole___) se espalharam. O comediante Roberto Lipari também comentou no Instagram: “Errei no ajuste do contraste das cores na TV”, ironizando o tom artificial do bronzeado.
As críticas não vieram só do público anônimo. A jornalista e opinionista Selvaggia Lucarelli declarou, em participação no programa La Vita in Diretta, que não é particularmente fã: “Não o amo particularmente, não foi mal, se adequou aos tempos. Acho que representa um estereótipo do macho hiper-viril, com esse óleo de oliva espalhado no peito.” Em seguida, comparou com saudade ao Sandokan de Kabir Bedi, afirmando que apreciou mais o vintage do que a encarnação atual.
O fenômeno é interessante além do riso fácil: Can Yaman virou um pequeno cenário de transformação da cultura pop — onde a encenação do corpo, a performance e a tradução (literal e simbólica) se encontram. Como uma cena de filme que revela, por reflexo, a ansiedade contemporânea sobre imagem e autenticidade, o episódio em Sanremo é um lembrete de que o entretenimento raramente é apenas entretenimento.
Enquanto isso, as redes seguem trabalhando como prisma: ampliam detalhes (o brilho no peito, o tom da pele, a voz) e revelam algo sobre as narrativas que a plateia escolhe celebrar ou ridicularizar. Se Sandokan representava uma memória afetiva e uma certa tradição, a passagem de Can Yaman por Sanremo funcionou como um reframe — um espelho que devolve ao público não só o artista, mas o roteiro oculto dos nossos gostos e inseguranças.
Data da cobertura: 26 de fevereiro de 2026.






















