Na tarde da Festa da Imaculada, o encontro radiofônico que mistura riso e reflexões culturais voltou a conquistar ouvintes: em mais uma edição de La Pennicanza, o veterano apresentador Fiorello e Fabrizio Biggio conduziram uma conversa leve e afiada — desta vez com o ator Can Yaman como convidado, ligado por videochamada enquanto promovia a série de grande sucesso Sandokan nos canais Rai.
O diálogo ganhou imediatamente tons bem-humorados. Fiorello abriu com provocação carinhosa: “Mas tu o italiano fala — e bem!”. Can devolveu com naturalidade cosmopolita: fala inglês, espanhol e turco, estudou alemão, russo e francês quando criança e, sobretudo, revelou ter feito o liceu italiano em Istambul. “Hoje eu até penso em italiano — é a minha língua preferida”, disse, numa declaração que mais parece uma ponte cultural entre universos.
Num desses instantes em que o entretenimento vira espelho do nosso tempo, veio um pequeno scoop: embora, na Turquia, seja torcedor do Beşiktaş, Can Yaman confessou que, desde que vive e trabalha na Itália, virou torcedor da Roma e acompanha todos os jogos. É um detalhe que revela menos a fluidez das lealdades futebolísticas e mais o processo de identidade em trânsito — o roteiro oculto da sociedade que se redesenha quando a carreira atravessa fronteiras.
A conversa também virou proposta profissional. Can surpreendeu ao oferecer a Fiorello um projeto: quando voltar para filmar a segunda temporada de Sandokan na Itália, pretende rodar uma comédia e quis envolver o apresentador. A resposta veio em tom de autosabotagem cômica: “Preciso pensar — com a idade que tenho, eu podia ser teu pai”. Can riu e já imaginou a cena: “Na série, você será meu pai — o pai descolado que se casou e divorciou quatro vezes”. O episódio funcionou como uma pequena mise-en-scène sobre papéis, imagem pública e a performance constante de si mesmo.
Fiorello não poupou elogios: além da beleza, destacou a cultura de Can — que revelou ter formação em Direito, ter sido advogado por seis meses na Turquia e, depois, mudado de rumo. “Se eu tivesse dinheiro, teria estudado a vida inteira”, disse Can, em um comentário que soa como afeição sincera pelo saber, esse luxo íntimo que poucos tratam com vulnerabilidade na esfera pública.
O programa ainda trouxe sua habitual mistura de sátira e comentário social. Fiorello relembrou a Prima della Scala do fim de semana, assistida com devoção diante da TV, e divertiu-se com a colisão entre alta cultura e audiência televisiva: enquanto ele elogiava a potência do espetáculo, apontou com ironia como os brasileiros — ops, italianos — preferiram o entretenimento popular, destacando o estrondoso índice de audiência de Gerry Scotti na mesma noite.
Fechando com uma nota quase surreal, Fiorello reproduziu a telefonada com o Presidente Mattarella, ausente da Prima: o chefe de Estado justificou sua ausência com anedotas de uma escapada a Roccaraso, deslizando entre humor institucional e intimidade pública — um retrato do tempo em que as figuras públicas transitam entre cerimônia e stories.
Essa edição de La Pennicanza reafirma por que o programa é um dos faróis do rádio contemporâneo: combina entrevista, esquetes e comentário cultural, convocando o público a olhar além do rótulo do entretenimento. Como analista cultural, vejo nessa conversa uma pequena cena — quase cinematográfica — que revela como a fama, a língua e o afeto por um clube de futebol fazem parte do mesmo espelho que reflete quem somos hoje.






















