Calciomercato como cerimônia: o retorno da credibilidade e a poesia do jogo mesmo fora dos campos
Por Chiara Lombardi — Em tempos em que o espetáculo frequentemente se confunde com a farsa, Calciomercato – L’originale, conduzido por Alessandro Bonan e Gianluca Di Marzio, surge como um reframe necessário: devolve ao mercado de transferências aquilo que lhe faltava — credibilidade. Não é pouco. Em uma paisagem mediática em que abundam os vendedores de fumaça e os supostos insiders, a seriedade volta a marcar posição.
O resgate dessa autoridade tem raízes práticas e simbólicas. Recordo um fragmento de um antigo programa de 1992, Fair Play, apresentado por Rino Tommasi na Tele+. Naquele estúdio estavam figuras como Giancarlo Beltrami, Romeo Anconetani, Gianpaolo Ormezzano e Luciano Moggi. O tom era de superioridade acadêmica em relação ao tema do mercado: Tommasi lembrava que, outrora, a página dos jornais dedicada à compravenda de jogadores era chamada de “bugiardino“.
O termo tem uma genealogia curiosa. Referia-se ao folheto informativo de remédios — os primeiros rótulos industriais exibiam instruções sucintas e tranquilizadoras — e, por extensão, virou sinônimo de algo pouco confiável. Na Toscana, “bugiardo” chegava a nomear as manchetes expostas nas bancas, talvez pela tonalidade sensacionalista com que eram escritas.
Hoje, no entanto, o calciomercato transformou-se numa peça ritual: parte integrante da cerimônia esportiva, um verdadeiro teatro da espera. É o tempo do desejo e da ilusão, uma sequência de episódios que dá sentido e continuidade ao jogo mesmo quando a bola não rola. Como um filme seriado, a narrativa se alimenta de indiscrições e reviravoltas, imprimindo emoção ao interregno entre temporadas — a narrativa seriale do futebol moderno.
Mas para que esse ritual do desejo não decaia em charlatanismo, é preciso trabalho sério. É aí que entra o esforço de Gianluca Di Marzio, cuja busca por fontes confiáveis e verificação constante elevou o padrão de credibilidade. E também a contribuição de Alessandro Bonan, que converteu um boletim informativo em um verdadeiro programa televisivo, com forma e escrita que marcam o imaginário do público — agora até em formato itinerante, como nas recentes transmissões direto do Trentino.
Na televisão, o prestígio de um programa nasce da sua arquitetura: da forma, da escrita, da capacidade de imprimir imagens mentais que persistem. Calciomercato – L’originale prova que, quando bem feito, o noticiário sobre transferências não é apenas rumor; é espelho do nosso tempo e do modo como projetamos desejos coletivos. É a pequena metafísica do futebol — uma cena onde o jogo transcende as quatro linhas e se transforma em narrativa cultural.
Se o mercado de jogadores é hoje uma cerimônia do desejo, isso se deve a quem soube levar a sério o ofício de informar. Nesse cenário de transformação, o programa de Bonan e Di Marzio não apenas relata: ele reconstrói a confiança. E essa reconquista, para além das cotas de audiência, é um ganho civilizatório para a maneira como concebemos o espetáculo esportivo.
Milão, 28 de janeiro de 2026






















