Em um cenário que parece ao mesmo tempo um estúdio e a Terza Camera do Parlamento, Bruno Vespa comemora os 30 anos de Porta a Porta, programa que estreou em 22 de janeiro de 1996 com a música de «Via col vento» e que desde então se tornou um espelho do tempo político e cultural da Itália.
Na edição especial exibida em primeira‑grande nesta quarta‑feira, Vespa encara a efeméride com discrição e uma pontada de emoção. Ele recebe saudações institucionais — entre elas uma mensagem papal — e a confirmação de que, em 9 de fevereiro, o Presidente Sergio Mattarella os receberá no Quirinale. É, como ele gosta de dizer, uma noite em que «passaram por aqui todos os políticos»: estão convocados Giorgia Meloni, Elly Schlein, Giuseppe Conte, Antonio Tajani, Matteo Salvini e Matteo Renzi.
O elenco de celebridades mistura política, espetáculo e memória televisiva: Carlo Conti, Mara Venier, Milly Carlucci — que participou da primeira edição quando o convidado era Romano Prodi — Valeria Marini e Al Bano. Haverá ainda objetos‑símbolo que funcionam como figurinos de cena para a história: o plastico de Cogne e a escrivaninha onde, segundo a narrativa pública, Silvio Berlusconi assinou o seu famoso contrato com os italianos.
Ao revisitar três décadas de arquivos, a retrospectiva não evita os grandes episódios que transformaram a televisão em palco histórico. Vespa lembra da noite do 11 de setembro, quando a redação improvisou uma edição em primeira‑grande para acompanhar o ataque às Torres Gêmeas — um momento de audiência recorde, com share em torno de 34%, empatado com a entrevista sobre o caso de Anna Maria Franzoni (Cogne). Outra sequência que permaneceu na memória coletiva ocorreu em segunda‑grande: a participação de Katia Belillo (na época ministra com o governo D’Alema), que desferiu um pontapé em Alessandra Mussolini — episódio que, segundo Vespa, bateu picos de 69% de share no instante do choque e uma média de audiência de 55%.
Há, nas lembranças de Vespa, a percepção de que os formatos mudaram. Quando começou, havia apenas ele e Maurizio Costanzo no late night de análise; hoje, multiplicaram‑se os talk shows e os espaços de debate. Mas Porta a Porta soube se adaptar sem se reinventar completamente: das maiores mesas monográficas dos primeiros anos, migrou para blocos mais curtos e dinâmicos, um reframe lembrado pelo próprio apresentador — que aprendeu a cortar o fio da fala quando percebe que o convidado se prolonga demais.
Como analista cultural, é impossível não ver nesse aniversário um espelho mais largo: Porta a Porta não é apenas um programa de entrevistas; é um roteiro oculto da sociedade italiana que registra seus clímax, contradições e rituais de legitimação. Os objetos em cena — uma escrivaninha, um plastico, um palco improvisado — funcionam como props de uma narrativa coletiva, pontos de fixação da memória pública.
Na celebração, portanto, desfilarão não só figurões e episódios icônicos, mas também o próprio dispositivo televisivo que ajudou a moldar o debate público nas últimas três décadas. Vespa, com a sua calma canônica e o instinto de quem já dirigiu cenas políticas e dramáticas, reconhece a transformação do ritmo e a multiplicidade de vozes. Ainda assim, afirma, cada programa segue sendo um encontro entre a história e a sala de estar dos italianos — uma espécie de espelho do nosso tempo que permanece em cena.






















