Por Chiara Lombardi — Em mais um capítulo do grande roteiro da música pop contemporânea, Britney Spears teria vendido o seu catálogo musical para a sociedade americana Primary Wave por aproximadamente 200 milhões de dólares, segundo reportagens de veículos dos EUA, entre elas o TMZ. A negociação inclui canções que se tornaram ícones do fim dos anos 1990 e início dos 2000, como …Baby One More Time e Oops!… I Did It Again.
Primary Wave é conhecida por adquirir e gerir direitos musicais e a imagem de grandes nomes — um gestor de espelhos culturais que reposiciona obras no mercado e na memória coletiva. Entre os ativos já administrados pela empresa estão nomes como Stevie Nicks, Prince, Whitney Houston e Biggie Smalls. No caso de Britney, ainda não foi esclarecido publicamente que tipo de direitos foram efetivamente negociados: muitos de seus maiores sucessos têm songwriting controlado por outros autores, e a maior parte do valor costuma residir nas gravações originais (os masters), que são, historicamente, objetos de posse da indústria — no caso dela, com participação da Sony Music.
O movimento da cantora de 44 anos insere-se num padrão contemporâneo de artistas que monetizam o próprio legado ao transferir catálogos, uma tendência que vai de Bruce Springsteen a Bob Dylan. Para Britney, esse capítulo financeiro chega depois de um período pessoal e público especialmente intenso: a libertação da tutela legal imposta por seu pai, o fim da tutela em 2021, o casamento em 2022 com Sam Asghari e a subsequente separação, além da publicação do memoir The Woman in Me em 2023 — cujos direitos cinematográficos foram comprados pela Universal em 2024 para a produção de um biopic dirigido por Jon Chu e produzido por Marc Platt.
Ao mesmo tempo, a artista segue com planos de retorno aos palcos e ao mercado: a turnê Route 96 passou pela Europa e Itália, e há expectativa pelo lançamento de um novo álbum. A venda do catálogo, portanto, não é apenas um contrato comercial, mas também um gesto estratégico — um reframe de controle sobre como a sua imagem e suas canções serão utilizadas, licenciadas e integradas ao imaginário coletivo nas próximas décadas.
Do ponto de vista cultural, a transação nos convida a refletir sobre quem, hoje, possui a memória sonora de uma geração. Vender um catálogo é, de certo modo, autorizar outra mão a escrever as legendas que acompanharão nossas recordações. Na linguagem do cinema, é como quando se transfere a propriedade de um filme clássico para um estúdio que decide reexibi-lo, remontá-lo ou transformá-lo em franquia: o material original permanece, mas a curadoria muda, e com ela a forma como o público relembra e re-significa aquele passado.
Independentemente dos detalhes jurídicos ainda a esclarecer, a notícia confirma que Britney Spears segue sendo um dos espelhos mais nítidos do nosso tempo pop — uma artista cuja trajetória pessoal e profissional funciona como um roteiro oculto da sociedade entre fama, controle e reapropiação cultural.
Publicado em 11 de fevereiro de 2026.






















