Por Chiara Lombardi, Espresso Italia
Em um gesto que mistura ternura, torcedorismo e construção de identidade, o cantor Briga anunciou nas redes sociais que já começou a preparar a chegada da primeira filha com a atriz Arianna Montefiori. Na imagem publicada, ele aparece segurando duas camisas do clube de coração: a primeira e a segunda camisa da Lazio. A legenda breve, em dialeto romano, dizia: “Me so’ portato avanti” — algo como “já me adiantei”.
O registro é simples, quase cinematográfico: um artista que projeta um pequeno arquétipo afetivo para a sua filha, colocando desde já a iconografia esportiva como possível mapa emocional. Não se trata apenas de um presente; é um sinal sobre como memórias e pertencimento são passadas entre gerações — a camisa como objeto-cena que promete aparecer nas primeiras fotografias familiares e, quem sabe, nas arquibancadas do Estádio Olímpico.
Briga já havia declarado em entrevista à Adnkronos que comprou “duas magliette della Lazio” e brincou sobre a possibilidade de que o primeiro ou o segundo retrato da filha contenha esse emblema. Mas a sua fala vai além da brincadeira torcedora: o artista revelou a preocupação com a infância em tempos de saturação digital. “Gostaria que minha filha crescesse longe da tecnologia, de telefones e iPads, porque isso estragou as relações sociais; quero desenvolver a sua criatividade, estimulá-la com jogos interativos e fazê-la crescer no esporte”, contou ele.
Esse desejo de preservar espaços analógicos — de reinventar brincadeiras que estimulem a imaginação — funciona como uma pequena resistência ao fluxo acelerado da era digital. É também um comentário sobre o papel do esporte como roteiro de socialização: não apenas um entretenimento, mas um dispositivo simbólico que modela afetos, ritualiza pertencimentos e escreve um tipo de genealogia emocional.
Como observadora do Zeitgeist, não posso deixar de ver nessa cena um eco cultural: a tendência contemporânea de adultos que, conscientes do impacto da tecnologia, resgatam práticas físicas e coletivas. A camisa da Lazio torna-se, nesse sentido, um prop que liga o privado ao público — a criança enquanto futuro espectador e possível protagonista nas tribunas.
Há uma beleza discreta no gesto do pai-artista: preparar com antecedência pequenos sinais que serão parte do arquivo íntimo da família. Ao mesmo tempo, a declaração sobre limitar telas e promover esportes aponta para um debate maior sobre como educamos novos corpos e afetos no século XXI. É um reframe sobre infância e memória — uma cena que, embora singela, dialoga com o roteiro oculto da nossa época.
Enquanto aguardamos o nascimento, a foto com as duas camisas já diz muito. É um convite para observar como as identidades familiares serão costuradas entre tradição, escolha estética e um desejo consciente de preservar o lúdico. Talvez, um dia, a pequena apareça nas primeiras fotos vestindo branco e céu — as cores da própria história que o pai escolheu antecipar.






















