Por Chiara Lombardi — Na última edição de sábado à noite, o programa Blob Bananas (Rai3) assinou uma investigação audiovisual que funciona como um espelho do nosso tempo: fragmentada, provocadora e capaz de iluminar traços ocultos da história. A curadoria de Simona Buonaiuto reuniu imagens e sons que, juntos, compõem um verdadeiro magma de significados sobre as intervenções dos Estados Unidos na América do Sul.
O episódio constrói sua narrativa através da colagem — de Woody Allen em Il dittatore dello stato libero di Bananas a documentários antigos da Rai, passando pelo filme Journey to Banana Land, trechos de telejornais e arquivos que vão do fim do século XIX até os episódios mais recentes. Essa montagem em livre associação não é apenas estilística: é uma estratégia para mostrar como imagens e discursos se sobrepõem e moldam memórias coletivas.
O roteiro visual traça uma linha temporal concisa, porém contundente: a criação do Canal do Panamá (1903), quando os Estados Unidos apoiaram a independência do território da Colômbia para assegurar influência estratégica; a série de ocupações no Nicaragua (1912–1933) visando interesses econômicos e geopolíticos; o golpe de 1954 na Guatemala orquestrado pela CIA contra Jacobo Árbenz, reflexo do choque entre reformas agrárias e interesses comerciais — em particular os da United Fruit Company.
Avançando nas décadas, o documentário audiovisual lembra o apoio logístico norte-americano ao golpe de 1964 no Brasil contra João Goulart; o apoio ao golpe no Chile (1973) que levou Augusto Pinochet ao poder e derrubou Salvador Allende; o reconhecimento e suporte aos militares argentinos após 1976 (com menções ao papel de Henry Kissinger); e intervenções em Bolívia (1971), além de episódios simbólicos como a Baía dos Porcos em Cuba. O programa também coloca a Venezuela contemporânea no quadro: a captura de Nicolás Maduro é apresentada como um eco dessa longa herança, e a retórica de figuras como Trump acentua presságios mais sombrios.
Do ponto de vista estético e semiótico, Blob Bananas usa música — como trechos dos Inti Illimani — e referências cinematográficas — por exemplo, cenas de Missing de Costa-Gavras — para transformar arquivo em crítica. Há ainda uma peça perturbadora: um vídeo gerado por inteligência artificial que coloca Trump na pele de Maduro, lembrando que as fronteiras entre realidade e simulação se tornam terreno político.
O valor do episódio está nessa capacidade de operar como um dispositivo de reframe: a colagem não oferece simplesmente respostas prontas, ela cria tensões, confronta memórias oficiais e desenterra narrativas que a cronologia tradicional tende a domesticar. A confusão, observa o programa, é justamente o magma de onde emergem verdades ocultas — um estado onírico de associações livres que, embora pareça sonho, tem consequências palpáveis.
Como analista cultural, digo que assistir a este tipo de montagem é ler o roteiro oculto da sociedade. O formato de Blob nos lembra que o arquivo audiovisual é uma arena de disputa: imagens velhas podem ser reativadas para iluminar o presente, e a memória coletiva se reconstrói em cortes, sobreposições e elipses. Em tempos em que a tecnologia pode forjar cenários com a mesma aparência da verdade, cabe ao espectador aprender a decodificar o espetáculo — e a perguntar sempre o porquê por trás das imagens.






















