Depois de um curto período afastada, revi È sempre Cartabianca e a suspeita que vinha cultivando ganhou contornos definitivos: Bianca Berlinguer começou a desempenhar, em cadeia nacional, um papel que lembra perigosamente o de Barbara D’Urso. Não apenas pelo uso insistente das luzes faciais, mas sobretudo porque o formato de um talk show dedicado ao aprofundamento político foi transformado em um verdadeiro varietà televisivo.
Varietà, aqui, no sentido clássico: um espetáculo de «arte varia», com uma sucessão livre de números heterogêneos que misturam política, comédia, transformismo, reportagem de tragédia — o que já virou gênero em si, segundo a própria programação — e acrobacias verbais. É como se, no roteiro oculto da sociedade, alguém tivesse decidido reframear o noticiário e o debate em episódios de choque e encanto.
O episódio que vi começou com a notícia de um novo coração para o menino transplantado em Nápoles — e com a inevitável e dúbia sugestão: um milagre suscitado após medidas governamentais? Cada bloco informativo era pontuado por um corte para a correspondente plantada em frente ao hospital Monaldi, ao lado do advogado de “mamma Patrizia”. Do advogado saiu uma frase de efeito que soou mais como manchete de tablóide: “Estão tentando se adjudicar o coração” — dita num tom que transformava a fila de transplante em uma roleta de destino.
Entre os convidados, quem parecia atrair uma autoridade tranquila era Mauro Corona, figura montanhosa de sabedoria que brinca de âncora moral — ainda que devesse cuidar para não virar imitação do imitador Andrea Scanzi. A apresentadora, com um timing que mistura afeto ritual e exploração do choque, serviu aos espectadores um cocktail de pautas: hospital, referendo, CasaPound, Federica Brignone, o humor de Andrea Pucci, o curioso relato sobre o descobrimento do bidê por atletas americanas, Valentina Persia, o embate entre Fratoianni e Mario Giordano, e até o colorido do Carnaval do Doge.
O que chama a atenção não é apenas a pluralidade de temas, mas a ausência de um fio narrativo que os una numa análise consistente. Em vez disso, há uma sequência de pequenos sensazionalismos, pensados para prender a atenção de um público que parece ver na apresentadora uma figura quase aureolada — e, ao mesmo tempo, centrada em si mesma, em eco com seguimentos televisivos populares, à la Massimo Giletti.
Há, claro, uma arte em transformar o próprio desorientamento em espetáculo. Quem assiste, muitas vezes, não busca respostas; busca confirmação de um estado emocional. E é aí que o sensazionalismo encontra — e explora — o seu território: transmitir afeto, horror e escândalo em igual medida. Se a televisão contemporânea é o espelho do nosso tempo, a transformação de um talk de análise em varietà é o reflexo de uma sociedade que prefere o brilho do fragmento ao trabalho paciente da investigação.
Em suma: Bianca Berlinguer, no papel de mediadora desse caleidoscópio, não é apenas uma âncora; é uma diretora de cena do sensacionalismo cotidiano. Como nos melhores — ou piores — roteiros da cultura pop, sobra espetáculo e falta a sutileza de um fio crítico que nos convoque a pensar além do impacto imediato.






















