Por Chiara Lombardi — Em um gesto que ultrapassa o brilho dos holofotes de Sanremo, Bianca Balti devolveu ao público uma fala carregada de verdade clínica e existencial: terminar as terapias não significa automaticamente apagar o medo. Essa observação, simples na forma e profunda no conteúdo, foi comentada para o Espresso Italia Saúde por duas vozes de referência da oncologia italiana, a oncologista Rossana Berardi e Saverio Cinieri, destacando um capítulo muitas vezes invisível do percurso oncológico.
Como explica Rossana Berardi, presidente eleita da Associação Italiana de Oncologia Médica (Aiom), o período que se abre após a interrupção das quimioterapias é um tempo sensível: marcado pelo receio da recidiva, pelos efeitos corporais permanentes e pela necessidade de reconstruir uma identidade que não será igual à de antes. É uma fratura narrativa entre o ‘antes’ e o ‘depois’, uma perda de despretensão e da sensação de invulnerabilidade que, na superfície, costuma ser simbolizada pelo retorno do cabelo. Mas, clinicamente, o fim das terapias inaugura um cenário em que o acompanhamento diminui e, paradoxalmente, a ansiedade sobre a possibilidade de volta da doença pode aumentar.
Os especialistas lembram que, no caso de câncer de ovário hereditário, como o diagnosticado em Balti em 2024, a dimensão genética insere uma camada adicional de complexidade: o peso do risco, as implicações familiares para filhas, irmãs e mães, e a responsabilidade de decisões que extrapolam o corpo individual. Quando uma figura pública escolhe falar desse luto íntimo, ela faz mais do que desabafar: contribui para normalizar uma experiência que tantas pacientes silenciam por sentir que deveriam estar apenas aliviadas por terem terminado o tratamento.
Segundo Saverio Cinieri, essa visibilidade é essencial porque desnuda um ponto cego do sistema de cuidado. A fase pós-tratamento deve ser considerada parte integrante do percurso terapêutico, com programas que integrem monitoramento clínico e suporte psicológico. Em outras palavras, a cura médica não encerra automaticamente a narrativa subjetiva — inicia, muitas vezes, a reconstrução de uma nova normalidade, que pode ser mais consciente e, por vezes, mais profunda.
Como analista cultural, vejo nessa declaração de Balti o reflexo de um roteiro oculto da sociedade contemporânea: esperamos que a recuperação seja um corte limpo no enredo, quando na verdade é um processo de reescrita identitária. A tarefa da oncologia moderna, então, é não apenas tratar células, mas preparar as pacientes para a continuidade da história — oferecendo suporte para que o medo seja reconhecido, acolhido e, aos poucos, reconfigurado em novos modos de viver.
Ao trazer essa discussão ao palco de Sanremo, Balti transforma um testemunho pessoal em eco cultural: revela o que muitas pacientes sabem na intimidade e desafia a sociedade a olhar para o pós-tratamento com a seriedade e a sensibilidade que ele merece.





















