Por Chiara Lombardi — No Dia Mundial do Câncer, 4 de fevereiro, a top model italiana Bianca Balti voltou às redes para recontar um capítulo íntimo e coletivo ao mesmo tempo: o seu percurso com o diagnóstico genético e o câncer. Em um post que funcionou como um pequeno manifesto, ela descreve o último ano como o mais ‘complexo’ de sua vida.
Balti recorda o ponto de virada que a levou a optar por uma mastectomia preventiva após descobrir a mutação BRCA1. Naquele momento, conta a modelo, a decisão foi mal compreendida: ‘Quando escolhi uma mastectomia preventiva depois do diagnóstico BRCA1, me disseram “por que você faz isso se não está doente”‘. Antes mesmo do diagnóstico formal, ela havia sentido que algo não estava bem, mas foi desacreditada e rotulada como ‘paranoica’. A seguir veio o diagnóstico de câncer de ovário em estágio III.
A narrativa pública de Bianca desmonta a expectativa simplista de uma curva linear de recuperação. ‘Quando tive câncer, as pessoas sentiam compaixão, mas eu me sentia mais forte do que nunca e tudo que eu queria era me sentir normal’, escreve ela. E explica como a fase mais enganosa foi depois do tratamento inicial: ‘Quando a quimioterapia terminou e meu cabelo cresceu, as pessoas pensavam que eu estava bem. Eu não estava; essa foi a parte mais difícil’.
Ao descrever a experiência, Balti usa uma série de emoções contraditórias que tornam o percurso tão humano quanto implacável: dúvida, julgamento, culpa, força, medo, adrenalina e luto, muitas vezes todos ao mesmo tempo. Essa enumeração é uma sequência quase cinematográfica — um corte abrupto entre cenas que coexistem, lembrando o roteiro não linear que muitas histórias de doença compõem.
O que ressoa no post é mais do que o relato individual: é um convite para repensar como ouvimos uns aos outros diante do sofrimento. Ela conclui com uma mensagem direta aos que atravessam a mesma experiência e aos que os cercam: se algo soa familiar, você não está sozinho. O câncer, diz, ‘não é uma história’. Foi duvidado antes, julgado durante e mal compreendido depois. ‘E se alguém que você ama está passando por isso, escute mais, conserte menos’ — uma frase que age como um espelho do nosso tempo, convidando à empatia ativa em vez de soluções rápidas.
Como analista cultural, vejo nesse relato a semiótica do viral e o eco cultural que transforma uma vivência íntima em comentário público. A decisão pela mastectomia preventiva e o diagnóstico de BRCA1 não são apenas dados médicos: são atos que reverberam na identidade, memória e nas expectativas sobre o corpo feminino em sociedade. A recuperação pós-quimioterapia — quando o exterior parece alinhado, mas o interior ainda está em cena — é o reframe da realidade que muitos escondem atrás de um sorriso restaurado.
Balti nos lembra que o processo não cabe em um único take. É um filme em que cortes, flashbacks e elipses coexistem; e, se prestarmos atenção, há lições para quem ama e para quem cuida: ouvir mais, julgar menos e reconhecer que a cura muitas vezes não é sinônimo imediato de retorno à normalidade. No Dia Mundial do Câncer, sua voz reforça que falar sobre o que foi duvidado, julgado e mal interpretado é parte crucial da cura coletiva.






















