Por Chiara Lombardi — O Bergamo Film Meeting, em sua 44ª edição (7 a 15 de março), assume um papel que vai além da exibição: atua como um espelho do nosso tempo, colocando a Europa no centro do roteiro cultural. Com um cartaz extenso — mais de 170 títulos — o festival reafirma sua paixão por um cinema continental que problematiza identidades, memórias e tensões sociais. Em uma jogada simbólica e midiática, a campanha de apoio ao festival traz a efígie de Tony Curtis, peça visual que dialoga com a iconografia do star system e convida o público a refletir sobre as imagens que narram a história do cinema.
Davide Ferrario, presidente do BFM, sintetiza essa opção: “Da minha posição de intelectual, ainda acredito ser legítimo duvidar da centralidade cultural dos EUA como único parâmetro”. O festival, portanto, parece assinar um reframe: buscar na geografia europeia não apenas os rostos do passado, mas os contornos de um presente multifacetado.
As diretoras Fiammetta Girola e Annamaria Materazzini apresentam um programa que, vez após vez, remete à cartografia continental. A Mostra Concorso inclui sete filmes — todos profundamente europeus — que discutem valores e aspirações do continente, e os dramas vividos por cidadãos e coletivos. Curiosamente, não há títulos italianos na competição principal, um detalhe que soa como um diagnóstico após a ausência de produções nacionais na recente Berlinale.
Os filmes selecionados, escolhidos entre cerca de 500 inscritos, vêm da Alemanha, Holanda, Eslovênia, Espanha, França (com duas presenças) e até de Chipre, que marca seu debut no Film Meeting. Esse mapa de origens confirma que a narrativa europeia se renova em pluralidade, revelando vozes periféricas e centros tradicionais em diálogo tenso.
No setor de documentários, a seção Visti da vicino exibe 14 títulos; entre eles, apenas um representante italiano: Padrone e sotto, dedicado à new wave artística napolitana. A presença limitada de títulos nacionais insiste sobre um ponto: o festival quer escutar a Europa olhando para além do seu umbigo.
O Grand Tour prossegue com a mostra Europe, Now!, que oferece retrospectivas completas de cineastas em polos opostos do espectro autoral. A húngara Ildikó Enyedi — vencedora do Urso de Ouro em Berlim por Corpo e alma — encontra o público em 12 de março na Sala Galmozzi, quando será exibido também Silent Friend, um filme poético e ainda inédito na Itália, em que um plátano secular dialoga com figuras humanas de épocas diversas. Alex van Warmerdam, por sua vez, é apontado como o Buñuel holandês, com seu humor grotesco que atravessa a burguesia.
Uma das janelas críticas do festival é a extensa retrospetiva dedicada a Agnieszka Holland, intitulada Europa Europa, composta por 16 filmes, incluindo o recente Franz, onde as referências kafkianas e poéticas ressoam em contínuo. A curadoria do BFM demonstra ainda o apreço por gestos cinefílicos generosos: a máscara cômica de Louis de Funès foi escolhida como imagem-símbolo do festival, abrindo uma janela lúdica e crítica sobre a comédia como espelho social.
Em suma, o Bergamo Film Meeting 2026 traça um roteiro cultural que se lê como manifesto: a Europa não é apenas cenário, é eixo temático. A efígie de Tony Curtis na campanha e as escolhas curatoriais indicam uma vontade clara de provocar perguntas — sobre memória, representatividade e o papel do cinema no re-imaginário coletivo. Aqui, o festival funciona como uma lente, um reframe; sua programação é um convite para olhar para dentro do continente e perceber, no cinema, o roteiro oculto da sociedade contemporânea.






















