Por Chiara Lombardi — O brilho do palco de Sanremo nos lembra que o canto é muito mais que entretenimento: é um gesto cultural que atua como um espelho do nosso tempo. Estudos e iniciativas clínicas apontam que o ato de cantar, sobretudo em grupo, tem efeito mensurável sobre a saúde física e mental, transformando melodias e harmonias em pequenos instrumentos terapêuticos.
O que diz a ciência
Pesquisas recentes indicam que 14 minutos de canto podem melhorar a função dos vasos sanguíneos de forma semelhante a um breve exercício físico. Outro estudo, realizado com 65 participantes com problemas cardíacos, observou efeitos positivos sobre a circulação, especialmente nos pequenos vasos. Esses resultados sugerem que o canto influencia o sistema cardiovascular, modulando também a variabilidade da frequência cardíaca — um indicador do equilíbrio do sistema nervoso autônomo.
Do ponto de vista imunológico, investigações preliminares, incluindo um estudo alemão, demonstraram aumento da imunoglobulina A (IgA) nas mucosas do nariz e garganta após cerca de uma hora de ensaio coral. Complementarmente, relatos científicos apontam redução nos níveis de cortisolo — o hormônio do estresse — após sessões de canto, o que pode indicar um efeito ansiolítico imediato.
Impacto social e saúde mental
O poder do canto não se limita ao corpo: em grupo, ele atua como um catalisador social. Há evidências de que o canto coral é eficaz no enfrentamento da depressão pós-parto e favorece a inclusão social de pessoas em contextos de vulnerabilidade. Na Itália, o Istituto Superiore di Sanità promoveu o projeto “Musica e maternità”, que usa encontros de canto para apoiar mães recentes com sintomas depressivos — um exemplo prático de como a melodia pode ser incorporada em políticas de saúde pública.
Limites e necessidade de pesquisa
É fundamental reconhecer as limitações: muitos estudos têm amostras reduzidas e mediram efeitos de curto prazo. Ainda não está claro quanto desses benefícios persistem ao longo do tempo ou qual é a dose ideal de prática vocal para efeitos clínicos duradouros. Por isso, especialistas da plataforma anti-bufale “Dottore ma è vero che…?”, curada pela Fnomceo, pedem pesquisas sistemáticas e de maior qualidade para confirmar e especificar esses achados.
Por que importa para além do palco
Se enxergarmos o fenômeno como um roteiro oculto da sociedade, o canto revela-se um dispositivo que conecta corpo, mente e comunidade. Em tempos de isolamento, a prática coletiva funciona como um reframe da realidade: a voz coletiva reconstitui laços, regula o ritmo fisiológico e oferece um sentido compartilhado. Não é só um bordão — “canta que ti passa” —, mas um indicativo de como a cultura pode se tornar ferramenta de cuidado.
Como analista cultural, proponho olhar para o canto como uma cena de cinema onde a trilha sonora altera a emoção da narrativa: quando pessoas se alinham em tom e respiração, elas reescrevem o próprio estado corporal e emocional. O próximo passo é traduzir essas percepções em protocolos clínicos e políticas públicas que valorizem a música como parte integrante do cuidado em saúde.
Chiara Lombardi é a voz de cultura pop, comportamento e impacto social da Espresso Italia. Ela observa o entretenimento como lente para compreender identidades e transformações históricas.






















