Por Chiara Lombardi — O Festival de Sanremo volta a funcionar como espelho do nosso tempo, e a presença de Belen Rodríguez em 2026 confirma um movimento curioso entre performance, nostalgia e reinvenção. Não será anfitriã nem apenas figurante: a apresentadora e artista retorna ao Ariston, pela quarta vez, para acompanhar Samurai Jay na serata dei duetti, numa cover que promete reescrever uma passagem já icônica do repertório italiano e latino.
Na sexta-feira, 27 de fevereiro, Belen subirá ao palco ao lado do rapper para interpretar a versão de “Baila Morena”, canção de Zucchero, com a inconfundível trompa de Roy Paci. Mais do que uma combinação de nomes, trata-se de um encontro de voz, expressão corporal e assinatura performática — o tipo de cena que no cinema surge como um doff de luz sobre a personagem e revela algo que não sabíamos sobre ela.
Embora haja especulações de que a sua figura possa aparecer com regularidade durante as cinco noites apresentadas por Carlo Conti, a confirmação oficial não foi dada: trata-se de uma surpresa guardada a sete chaves. Já uma surpresa revelada veio pelas palavras do Maestro Enrico Melozzi, que, em ligação ao programa “La Volta Buona” conduzido por Caterina Balivo, testemunhou os ensaios realizados em Sanremo. “Ontem à noite ela ensaiou e os ensaios correram muito bem; pensávamos que ela fosse só dançar, mas canta — vi uma prova linda, ela é extraordinária”, afirmou Melozzi, validando a dimensão vocal de Belen com a autoridade de quem conhece o palco e a orquestra.
Não é a primeira vez que a artista demonstra aptidão para o canto no Ariston. Em 2010 ela dividiu o microfone com Toto Cutugno na serata dei duetti, interpretando “Aeroplani”; em 2011 esteve entre os rostos que coapresentaram o Festival ao lado de Gianni Morandi e Elisabetta Canalis, ocasião em que houve também um momento em que cantou com o pai, Gustavo Fernandez. Em 2012 voltou ao palco, no ano apresentado por Morandi e Rocco Papaleo, com a modelo Ivana Mrázová — lembrada até hoje pela imagem do tatuagem de borboleta revelada por um vestido de Fausto Puglisi, um pequeno gesto que virou ícone de uma temporada.
Mais recentemente, Belen mostrou que sua relação com a música vai além da anedota: em 23 de dezembro de 2025, dividiu o palco com Nek durante a transmissão “Cena di Natale”, interpretando “Corazón Espinado“; e em participação com Alessandro Cattelan no programa “Stasera c’è Cattelan” brincou com uma versão de “Vorrei incontrarti tra 100 anni“, numa gag que, ironicamente, terminou com um pedido seu: ser convidada para Sanremo.
Esta edição de 2026 marca, portanto, a quarta passagem de Belen Rodríguez pelo festival. A sua presença nesta noite de duetos não é apenas um retorno: é um reframe da memória coletiva do palco, onde a celebridade se transforma em intérprete e a aparição em performance com potencial para reconfigurar percepções. Em tempos de espetáculo contínuo, são episódios como este que nos obrigam a olhar para além do roteiro óbvio e a perguntar — por que certas vozes voltam, e o que elas querem cantar do nosso presente?






















