Em uma aparição que mesclou compaixão e reflexão pública, a diretora Beatrice Venezi trouxe ao centro do debate a dimensão política e ontológica da ópera Carmen. Na sequência de uma visita de conforto às presas da ilha da Giudecca, Venezi proferiu uma lectio na 10ª edição da manifestação La Ripartenza, organizada por Nicola Porro, onde falou sobre a peça que acabou de dirigir em Pisa.
Sem comentar diretamente o conflito que a envolve com os músicos da Fenice — nem em Veneza nem em Milão — a maestrina aproveitou a análise da obra para traçar um diagnóstico mais amplo sobre a nossa relação com a liberdade. Segundo ela, «Carmen não é apenas a história de uma figura feminina independente, mas uma interrogação sobre a liberdade». Para Venezi, «em Carmen toda forma de poder se esvazia. Carmen não é ideológica, mas ontológica: não combate um sistema, ela simplesmente vive, e o Coro é a sociedade que normaliza o excesso».
Ao deslocar a discussão do personagem para uma dimensão simbólica, Venezi propõe que a tragédia da ópera nasce «da incapacidade do mundo de aceitar a liberdade, que é escandalosa porque não se regula». Essa leitura insiste em ver a obra como um espelho — um roteiro oculto da sociedade — onde o choque entre norma e singularidade abre fissuras no tecido social.
Se, para muitos, a música é consolo ou celebração, Venezi lembra seu caráter perturbador: «a música não moraliza, ela põe a moral em crise». O teatro, então, deixa de ser ferramenta de doutrinação para virar «lugar do dúvida»: «hoje estamos prontos para pagar o preço da liberdade?», questionou, lançando o desafio ao público e à plateia política presente no evento.
Há aqui um eco cultural que ultrapassa o palco: ao ler Carmen como um ensaio sobre autonomia e escândalo, Venezi reapresenta a ópera como uma cena onde se joga o futuro da convivência — e onde o Coro funciona como um espelho da sociedade que busca domesticar o excessivo. Essa perspectiva é típica de um olhar que não separa entretenimento de contexto histórico e político, e que entende o espetáculo como parte do debate público.
Ao encerrar, a diretora deixou claro que seu interesse não é polemizar sobre disputas institucionais, mas fomentar uma reflexão que atravessa arte, memória e responsabilidade coletiva. Em tempos de polarização, a pergunta que ela põe no centro do palco soa menos como conclusão e mais como convocação: qual o preço que estamos dispostos a pagar para que a liberdade continue a perturbar e, ao mesmo tempo, a nos revelar?
12 de fevereiro de 2026






















