Por Chiara Lombardi — No palco do Ariston, onde cada canção funciona como um take decisivo do nosso presente coletivo, a primeira banda totalmente feminina a pisar em Sanremo 2026 chega com uma proposta que é tanto estética quanto política. As Bambole di Pezza apresentam Resta con me, uma power ballad escrita em parceria com Nesli e que se coloca como um verdadeiro manifesto de sororidade e resistência: “Ficar juntas e resistir permite alcançar feitos importantes”, diz Morgana, guitarrista e uma das fundadoras.
Formada por Morgana (guitarra solo), Cloe (voz), Dani (guitarra rítmica), Xina (bateria) e Kaj (baixo), a quinteto é também a única banda concorrente nesta edição — fato que acentua o sentido de missão. “Estamos aqui para lutar pelo conceito de rock e pelo valor das bandas”, afirma Morgana. Há, nas entrelinhas, uma observação aguda: o universo das bandas e do rock parece atravessar uma crise de visibilidade. A presença delas no Ariston funciona como um reflexo e como um reframe: não apenas representar, mas reivindicar um espaço.
Dani explicita o dobrado significado do gesto: “É corajoso permanecer unido, especialmente num momento histórico marcado por conflitos. Nosso é um discurso político porque parte de um coletivo — um lembrete do valor da humanidade e do perigo de nos tornarmos ilhas”. Essa ideia transforma a canção em algo além do pendor sentimental da ballad: um convite à ação comunitária, quase um pequeno hino civil.
A opção por uma ballad surpreendeu parte do público, mas as Bambole di Pezza ressignificam o formato. “As ballads rock sempre fizeram parte do nosso percurso e têm o poder de transmitir uma mensagem universal”, explica Dani. A liberdade estética é proclamada com elegância: se amanhã quiserem fazer folk, o farão à sua maneira, mantendo uma atitude de mulheres independentes, emancipadas, livres e rebeldes.
“Quando estivermos naquele palco com guitarras distorcidas e bateria potente, desafio qualquer um a não chamar aquilo de rock”, provoca Morgana. A performance promete, portanto, ser tanto sonora quanto simbólica — a semiótica do viral encontra aqui o eco cultural de uma banda que construiu sua carreira na estrada.
Para a noite das covers, a escolha é um gesto calculado de resgate cultural: Cristina D’Avena e a clássica abertura de “Occhi di gatto”. Cloe descreve a versão como “bambolizada”: uma releitura que mantém a doçura pop enquanto a tensiona com elementos mais contundentes. “Cristina é a sexta boneca. Ela nos instigou a ser ainda mais rock”, conta a vocalista. A associação entre o desenho — três irmãs corajosas — e a narrativa do grupo fortalece o fio temático da sororidade.
A trajetória das Bambole di Pezza até Sanremo não é fruto do acaso: centenas de concertos, noites de garagem e trabalho independente que consolidaram uma identidade. “Queríamos chegar conscientes do caminho percorrido”, diz Cloe. O episódio tem o sabor do roteiro oculto da cena musical: provar que, do subterrâneo, é possível alcançar o grande palco. E, sobretudo, que ver cinco mulheres ocupando esse espaço importa — para visibilidade, para representatividade e para inspirar futuras gerações.
Sobre o Eurovision, a resposta é afirmativa, porém com um cuidado conceitual: sim, com um hino à união. Se a canção encontrar essa pista internacional, será levada como um apelo coletivo, uma manifestação artística que pretende traduzir em música um desejo de coesão num mundo fragmentado.
Em tempos em que a cultura pop funciona também como espelho do nosso tempo, as Bambole di Pezza propõem uma cena de transformação: uma ballad que não se rende ao conforto, uma atitude que reinventa o rock e um gesto de união que se faz, antes de tudo, presente.






















