Ashton Kutcher assume o papel de síntese de um dos dilemas culturais mais urgentes: a busca pela perfeição a qualquer custo. Em The Beauty, série de 11 episódios criada por Ryan Murphy e baseada na HQ da Image Comics de Jeremy Haun e Jason A. Hurley, Kutcher interpreta Byron Forst, um magnata da tecnologia que não vende software, mas sim a promessa de um corpo perfeito.
A narrativa se abre como um prólogo inquietante: uma passarela em Paris, uma modelo — vivida por Bella Hadid — que enlouquece e tem o corpo dilacerado em cena. Esse evento brutal é o primeiro de uma sequência de mortes que conectam beleza absoluta a destruição física. A trama transforma cidades como Paris, Veneza, Roma e Nova York em cenários de investigação, acompanhando dois agentes do FBI interpretados por Evan Peters e Rebecca Hall enquanto tentam decifrar uma epidemia que mata seres belíssimos.
O projeto estreia em 22 de janeiro no Disney+ e chega com uma carga simbólica pesada: Kutcher, além de ator e produtor executivo da série, é também conhecido por investimentos em grandes empresas de tecnologia como OpenAI, Anthropic, Airbnb e Uber. Essa convergência entre quem cria tecnologia e quem a representa em cena oferece um reframe potente: quando o roteiro encontra o circuito financeiro, o discurso sobre beleza vira espelho do nosso tempo.
Em entrevista, Kutcher afirma que a série não está contando um futuro distante, mas algo que já bate à nossa porta: “o futuro está a apenas cinco minutos de distância”. Ele aponta para práticas já presentes — uso de remédios para emagrecimento originados em tratamentos para diabetes, aplicações estéticas, cirurgias, turismo cosmético, e a busca por elixires da juventude financiados por multimilionários — e pergunta, retoricamente, se a sociedade esperaria por aprovações regulatórias caso uma substância realmente funcionasse. “Hoje as pessoas estão dispostas a tudo para melhorar a própria aparência. Nossa série explora essa necessidade”, diz Kutcher.
Sobre o que é beleza, ele responde com uma imagem quase poética, que poderia ser a legenda de um manifesto estético: “A beleza está em ser um projeto fabuloso em evolução. A beleza é potencialidade.” A declaração ganha espessura quando Kutcher aborda sua história pessoal: cresceu com um irmão gêmeo portador de paralisia cerebral e lembra de uma lição decisiva — o irmão lhe disse para não sentir pena dele, porque a autocomiseração cria uma hierarquia injusta entre vidas. Esse testemunho alimenta a discussão ética da série: a obsessão pela perfeição não é só estética, é política da existência.
O tom das declarações de Kutcher se torna mais alarmante quando ele fala do impacto das redes sociais na saúde mental dos adolescentes. Ele alerta que os ambientes virtuais podem se transformar em “perigo mortal”: comentários, comparações e a cultura do like já contribuíram para ondas de suicídios entre jovens, lembra o ator. A série opera justamente nesse território — a perfeição como mercadoria e o mercado que a alimenta — e nos força a olhar o roteiro oculto que produz insegurança e violência em nome do belo.
The Beauty não é apenas entretenimento: é um ensaio dramático sobre como a tecnologia, a economia e a estética se entrelaçam para reinventar os padrões do humano. Como observadora cultural, vejo na série um convite a um espelho maior: não apenas para contemplarmos faces bonitas, mas para questionarmos o valor que damos a elas e os custos que estamos dispostos a pagar. No fundo, o programa nos pergunta quem decide o que vale a vida quando a beleza vira mercadoria.






















