Por Chiara Lombardi — A cantora e compositora Arisa regressa ao Festival de Sanremo pela oitava vez com uma canção que é, ao mesmo tempo, autocrítica e celebração: Magica Favola. Aos 43 anos, a artista lucana revisita sua trajetória num tom de confidência—como quem lê o roteiro escondido da própria vida num caderno de cenas íntimas.
No texto de Magica Favola, Arisa percorre episódios que a moldaram: “Não trocaria nada, foi uma viagem densa de significados, de altos e baixos que me fizeram ser quem sou hoje”. Essa aceitação adulta se traduz numa segurança interior que, conta ela, antes buscava nos outros: “Sempre procurei segurança nos outros, sobretudo no amor. Agora decidi me apaixonar por mim mesma.”
Hoje Arisa diz sentir-se segura e capaz de se bastar: “Sempre estive em relacionamentos; era o sonho de menina me realizar sentimentalmente, mas desta vez quero experimentar me apaixonar por mim”. Está, portanto, solteira: “Sim, espero permanecer assim o máximo que conseguir. O amor é lindo, mas bagunça tudo. E o destino final de uma mulher não é necessariamente ter um homem ao lado.”
Sobre maternidade, a cantora se mostra cautelosa. Embora tenha descoberto, em sua passagem por The Voice Kids, a energia e o aprendizado que as crianças trazem, ela confessa não se sentir pronta: “Gosto muito de crianças, são incríveis e temos muito a aprender com elas, mas não sei se estaria pronta para a maternidade. Sou demasiado livre, e essa independência me agrada imenso.”
No refrão de Magica Favola, Arisa canta memórias etárias que funcionam como pequenas etapas de roteiro: aos 30, “todos falavam da minha voz”; aos 40, “quero só reencontrar paz”; e aos 50, um sonho iminente: “viver numa casa bonita em Pantelleria, junto ao mar”. Essa progressão tem algo de fábula urbana — um espelho do nosso tempo em que a carreira e o imaginário pessoal se entrelaçam.
O novo álbum, Foto Mosse, chega na primavera, e a artista já anunciou duas datas em maio, em Roma e Milão. Entre vitórias, um segundo lugar e uma passagem como coapresentadora, Sanremo segue sendo palco onde sua voz e sua persona política e íntima se encontram.
Quando olha para a Arisa ingénua de Sincerità, vencedora entre as Novas Propostas em 2009, ela confessa sentir ternura: “Era uma menina doce, não sabia ocultar a ingenuidade. Vinha da província de Potenza, era esteticista, e me vi subitamente diante de uma realidade imprevisível. Demorei anos para entender os mecanismos, mas nunca me dobrei—sei onde me encontro e o que faço.”
Há quem diga que trabalhar com ela é difícil. Arisa responde com ironia serena: talvez seja áspero para alguns ouvir verdades ditas por uma mulher do Sul; existe um imaginário pronto para reduzir a figura ao estereótipo. Ela, no entanto, segue centrada, fiel à própria voz—um instrumento que a libertou e que, mais do que rótulos, revela pensamentos, escolhas e uma recusa a se conformar.
Em suma, Magica Favola não é apenas uma música: é um reframe biográfico, uma pequena obra que nos pede para olhar o roteiro oculto da fama, do eu e do afeto. Arisa volta a Sanremo não apenas para cantar, mas para reafirmar que a verdadeira segurança nasce do encontro consigo mesma—uma lição que ressoa como o eco cultural desses tempos.





















