Em um retorno que soa como um reencontro íntimo com o próprio espelho do tempo, Arisa sobe ao palco do Sanremo com a serenidade de quem já revisitou muitas cenas do próprio roteiro. Na sua oitava participação no festival, ela apresenta Magica Favola, um balanço existencial que traduz essa nova consapevolezza — uma consciência tranquila, polida pelo tempo e pela experiência.
“Estou super tranquila, super serena”, confessa. O tom é de quem tirou o suspense do espetáculo e devolveu ao palco o prazer de cantar. Com uma equipe com a qual foi construindo uma relação que já flerta com a amizade, Arisa diz que não tem expectativas grandiosas: quer, simplesmente, cantar naquele palco tão carregado de memória cultural.
Magica Favola nasce como um relato autobiográfico assinado em colaboração com Galeffi, Giuseppe Anastasi e os Mamakass. É, nas palavras da própria cantora, um rescaldo de existência — um inventário das escolhas, das perdas e das dores que foram deixando marcas. “Há tudo de Rosalba nesta canção”, ela afirma. Mas, como todo bom espelho cultural, o texto também reflete algo coletivo: a experiência de uma geração que priorizou a ascensão profissional e, por vezes, reteve o olhar do resto da vida.
Nesse reframe da memória, Arisa admite ter aprendido uma lição que soa quase cinematográfica na sua simplicidade: o amor não habita apenas uma forma ou um lugar. “Antes, a minha máxima aspiração era encontrar uma pessoa para partilhar a vida. Agora entendi que o amor se encontra em muitas coisas diferentes.” É um enunciado que desloca o conflito íntimo ao panorama mais amplo do que chamamos vida — como se reescrever o próprio final abrisse novas cenas.
A emoção que a canção provoca é total: “Não sei dizer se há um único trecho que me comove mais — toda ela me comove.” Cantar, para Arisa, é revisitar fases, acolher ternura por si mesma e transformar autobiografia em paisagem comum.
Na serata cover, a escolha foi emblemática: Quello che le donne non dicono, reinterpretada em versão coral com o Teatro Regio di Parma. A intenção? Elevar a música a uma solenidade quase angelical. “As mulheres merecem solenidade, celebração e respeito”, diz. O arranjo coral é um gesto simbólico — usar o grande palco para lembrar que a presença feminina merece ser comemorada, sem fastos vazios, mas com a carga ritual que o momento exige.
Sobre o panorama do festival e o protagonismo feminino, Arisa recorda que, nos últimos 11 anos, apenas duas vencedoras foram mulheres — e ela é uma delas. Para ela, esse dado é um espelho social: não se trata apenas de sorte, mas de estruturas que historicamente privilegiam os homens. O diagnóstico é sócio-cultural, e o convite tácito é que a indústria repense seus roteiros para produzir representações mais diversas.
E quanto ao Eurovision? A breve sentença é clara e pragmática: abster-se não é solução. Em termos simbólicos, é como deixar de participar de uma cena importante do roteiro coletivo — e Arisa prefere estar na cena, com voz e presença, em vez de virar espectadora.
No fundo, a sua volta ao Sanremo não é só um número a mais na carreira; é uma reflexão em ato. É a atriz que retorna ao palco e, ao mesmo tempo, aquele que observa a plateia para entender o que mudou — e o que ainda precisa mudar. Em cada nota de Magica Favola, há uma nova clareza: a vontade de ver “todo o resto”, de olhar além do protagonista óbvio e reconhecer que a narrativa pessoal pode, sim, virar um espelho coletivo.






















