Arisa volta ao palco do Festival de Sanremo com Magica Favola, uma canção que soa como um bálsamo para os corações mais sensíveis. O seu vínculo com o Festival começou em 2009, quando conquistou a seção Nuove Proposte com Sincerità, e desde então Sanremo tem sido tanto ponto de partida como espelho das suas metamorfoses artísticas.
Nas primeiras aparições, lembramo-la como uma “menina nerd”, com óculos grandes que escondiam o rosto e um corte de cabelo irreverente. Ao longo dos anos, Arisa mostrou várias faces: da sensualidade à poesia, do romantismo mais explícito à introspecção. Essas transformações são partilhadas com um público fiel, num diálogo contínuo entre palco e intimidade — o roteiro oculto da sua carreira.
Antes do êxito, a cantora viveu uma série de ofícios: foi garçonete, cantora em piano bar, babá, cabeleireira, auxiliar de limpeza, trabalhadora na restauração e esteticista. A escalada ao sucesso tornou-a imparável: voltou a Sanremo em diversas edições como concorrente e protagonista de duetos; em 2012 alcançou o segundo lugar com a comovente La notte, canção que ainda hoje persiste na memória coletiva — e, segundo levantamentos recentes, figura em milhares de toques de telefone.
No plano televisivo, participou como jurada e coach em programas como X Factor, Amici, The Voice Kids e The Voice Senior. Paralelamente, manteve um papel ativo em iniciativas de caráter social e beneficente, de Amiche per l’Abruzzo (2009) a C’è da fare do supergrupo Kessisoglu & Friends (2019), além do compromisso com os direitos LGBT. Com presenças recorrentes e dois pódios no currículo, a sua volta ao Ariston alimenta expectativa entre fãs e observadores culturais.
Magica Favola foi escrita em colaboração com Giuseppe Anastasi, Galeffi e os Mamakass. O tema percorre o itinerário emocional de uma mulher, desde a infância até a vida adulta: as primeiras descobertas do amor, as feridas que se acumulam, a fadiga existencial e a busca por paz. O amor é descrito como um oceano — vasto e às vezes tempestuoso — e, através dessa imagem, a protagonista aprende a abdicar da “guerra do coração” em favor de serenidade, verdade e proteção. No final, reencontra a criança interior, preservando inocência, encanto e a capacidade de acreditar ainda no amor.
Trecho evocativo da letra: “Com dez anos, brincava com minhas bonecas sobre o amor. Aos quatorze, o primeiro beijo nas mãos; eu tinha um flor…” — pequenos fragmentos que funcionam como flashbacks, tornando a narrativa íntima e cinematográfica, quase como um plano-sequência que revela memórias em cortes suaves.
Na noite dos duetos do Festival, Arisa subirá ao palco acompanhada pelo Coro do Teatro Regio de Parma, interpretando Quello che le donne non dicono, canção escrita por Enrico Ruggeri para Fiorella Mannoia e que se tornou um hino à feminilidade na sua pluralidade. Vencedora do Premio della Critica em 1987, a faixa reforça o gesto simbólico de Arisa: entre a sua canção original e este clássico, estabelece-se um diálogo entre gerações e linguagens — um reframe da realidade que transforma o palco em espelho do nosso tempo.
Em suma, o retorno de Arisa a Sanremo é mais do que uma nova participação: é a confirmação de uma trajetória que combina autenticidade, reinvenção e compromisso cultural. Magica Favola propõe, em forma de canção, um pequeno tratado sobre a redescoberta da ternura num mundo acelerado — uma fábula sonora que nos convida a acreditar, novamente, na potência das pequenas verdades emotivas.






















