Por Chiara Lombardi — No sofá da apresentadora Caterina Balivo, a ex-Miss Itália Arianna David abriu uma janela íntima sobre uma luta que atravessa décadas: o distúrbio do comportamento alimentar (DCA). Em entrevista exibida na quarta-feira, 11 de fevereiro, David descreveu com honestidade a convivência diária com uma vozinha interna que lhe impõe o que pode ou não comer — um roteiro mental que há cerca de 30 anos dita restrições e impõe uma recusa sistemática ao ganho de peso.
“O distúrbio do comportamento alimentar está entranhado em mim há mais de trinta anos. Convivo com uma pessoa dentro de mim; a vozinha me diz o que posso e o que não posso comer. Tento me esforçar. Dou quatro passos à frente e três para trás”, contou Arianna, em tom sereno, revelando a natureza cíclica e resistente desse processo.
Há uma elegância silenciosa em admitir a fragilidade; há também uma coragem política em nomeá-la publicamente. Ao invés de reduzir o episódio a uma confissão, prefiro ler essa fala como um espelho do nosso tempo: a relação com o alimento muitas vezes traduz conflitos de identidade, padrões estéticos e expectativas sociais que se somam ao sofrimento individual.
Na prática, Arianna explicou como tenta reescrever hábitos antigos: introduz gradualmente mais proteínas à noite e mantém uma base muito vegetal na alimentação — evitando doces — enquanto mantém uma rotina intensa de treinos na academia. Para acompanhá-la nessa trama, a ex-Miss Itália está sob acompanhamento da ASL, que a orienta em um caminho integrado de suporte psicológico e nutricional, essencial para quebrar o mecanismo da recusa.
Em estúdio, o médico Calabrese destacou o núcleo do problema: a balança entre gasto e ingestão. “Ela gasta demais e ingere pouco. Tente introduzir carboidratos complexos, como leguminosas”, recomendou. A sugestão médica aponta para uma reequação energética necessária e para a revalorização de alimentos carregados de tradição e saciedade — como os leguminosos — no cotidiano alimentar.
Arianna fechou a fala com uma frase que resume a violência sorrateira do transtorno: “Eu comeria de tudo se não tivesse essa vozinha dentro”. Essa declaração ecoa como um refrão que muitos guardam em silêncio: o corpo pede, a mente recusa; o conflito se torna narrativa cotidiana.
Enquanto observadora cultural, vejo nessa conversa mais do que um desabafo pessoal: há um reframe necessário sobre como tratamos os DCA na esfera pública — menos estigma, mais caminhos integrados de cuidado. A trajetória de Arianna David, com suas idas e vindas, lembra que a cura e o manejo não são linhas retas, mas roteiros com cenas e cortes, onde profissionais, redes de apoio e políticas públicas precisam conversar.
Compartilhar histórias como essa é reconhecer que o entretenimento pode ser também um palco de responsabilidade social — um cenário onde se dá voz às feridas que atravessam gerações, e onde a empatia se transforma em política quotidiana.






















