Noite de lotação, expectativa palpável e uma plateia pronta para assistir a uma banda que supensa rótulos: Architects desembarcaram no Fabrique em Milão mostrando que sua trajetória é menos um roteiro previsível do que um filme em constante reescrita. Mais do que um concerto, a apresentação funcionou como um espelho do nosso tempo — uma narrativa sonora que conecta passado e presente.
A abertura ficou a cargo de acts que aqueceram o público, President e Landmvrks, antes que o conjunto de Brighton, já consolidado nos últimos quinze anos, assumisse o palco com a confiança de quem não precisa provar nada. Se o metalcore do início da década muitas vezes acabou aprisionado em si mesmo, os Architects provaram ao vivo que evoluir não significa trair a própria essência, mas ampliar o alcance emocional do som.
O setlist, última parada da turnê europeia, fez do novo disco The Sky, the Earth & All Between a espinha dorsal do espetáculo. A abertura com Elegy trouxe atmosferas densas e construção lenta — sequência que deu passagem para Whiplash e When We Were Young, confirmando que o foco do show estava solidamente plantado na fase mais recente da banda, sem abandonar momentos de sua discografia que já se tornaram clássicos. Trechos de For Those That Wish to Exist e the classic symptoms of a broken spirit pontuaram o set, intercalando com hinos como Black Lungs, Gravedigger e A Match Made in Heaven, que mantêm sua potência no vivo.
O frontman Sam Carter comandou a noite com uma presença quase cinematográfica: voz que alterna berros inabaláveis e melodias controladas, resistência física e controle técnico que tornaram crível um show de cerca de uma hora e meia sem quedas. Músicas como Impermanence, deep fake e Broken Mirror exibiram sua habilidade de transitar por registros opostos sem perder o fio condutor emocional — como um ator que muda de plano mantendo a coerência do personagem.
Um dos momentos de destaque foi a performance de Brain Dead, abrilhantada pela participação de Florent Salfati, do Landmvrks, um encontro que reforçou a ideia de cena como comunidade. No segundo ato, faixas do novo álbum como Meteor, Everything Ends e Blackhole assumiram uma fisicalidade diferente ao contato direto com o público: o que poderia soar mais acessível em estúdio ganhou intensidade em corpo e reação coletiva na plateia.
O encerramento com Doomsday — hoje quase um selo identitário da banda — foi a confirmação de que os Architects jogam em outra liga: mantêm um núcleo emocional reconhecível enquanto reconstroem seu repertório sonoro. A noite no Fabrique não foi apenas um recital de hits; foi um exercício de reenquadramento — um reframe que mostra como uma banda pode transformar sua história em algo maior, sem perder o centro.
Para quem viu e para quem ainda verá a turnê, a impressão é a de que os Architects não apenas atravessaram o rótulo do metalcore, mas redesenharam sua própria cartografia sonora. Em tempos em que impactos culturais são medidos em virais e flashes, ver uma banda construir consistência e profundidade ao vivo é um lembrete poderoso de que o verdadeiro impacto vem de coerência e coragem criativa.















