Chiara Lombardi para Espresso Italia — Em uma noite de salão cheio no Conca Verde, em Longuelo, Antonio Albanese apresentou seu mais recente filme, Lavoreremo da grandi, e ofereceu ao público uma aula de humanidade e ironia sobre o mundo do trabalho precário. Aos 61 anos, o ator e diretor — nascido em Como com raízes sicilianas — reafirma sua paixão por personagens marginalizados, como se escancarasse o roteiro oculto da sociedade contemporânea.
A plateia de quase 500 pessoas recebeu Albanese com um boato caloroso. Ao lado da atriz bresciana Marianna Folli, 39, ele explicou a gênese do filme: depois de duas obras mais dramáticas — Cento domeniche e Un mondo aparte, que enfrentaram resistências na produção — ele quis voltar ao comedioso, tarefa que descreve como “ainda mais complexa”. O ponto de partida foi uma notícia de província: uma tia abastada doa sua herança à igreja em vez de deixá-la ao sobrinho cinquantenário, desempregado por vocação, porque, segundo ela, “trabalhar é vulgar”. Em contrapartida, o sobrinho recebe uma coleção de perucas e maquiagens.
Albanese descreve essa anedota como uma pepita de realidade provincial onde se encontram “histórias, humores e caracteres que nas grandes cidades se diluem”. Essa escolha reafirma o olhar do cineasta sobre os excluídos — não como figura de piedade, mas como espelho do nosso tempo: uma antiepopeia que canta, em tom cialtronesco, a odisseia dos derrotados do Norte. É uma leitura que desmonta o mito do milagre econômico do Nordeste italiano e joga luz sobre a precarização ampliada pelo neoliberalismo: trabalhar menos, trabalhar todos — mas de maneira precária e desregulada.
No elenco, sobressai a presença de Giuseppe Battiston, 57, de Udine, um ator cuja carreira se construiu em torno de um cinema anarcoide e rebelde — uma corrente que questiona as raízes do suposto progresso industrial. A química entre os atores e o tom surreal da narrativa criam uma fábula amarga, pontuada por humanidade e comicidade antissistêmica.
Houve também espaço para a memória cinematográfica: Albanese confessou sua dívida com o cinema de Carlo Mazzacurati, cuja lição criativa permanece viva em seu trabalho. E, num momento mais descontraído, contou uma imagem curiosa do set: trabalhando à noite, sentia-se “como um lemure” — imagem que revela tanto o cansaço físico quanto o estado de vigilância e deslocamento que o universo do filme exige.
O episódio no Conca Verde confirmou algo óbvio e, ainda assim, revolucionário: encontros diretos entre artistas e público são um antídoto para a crise do cinema. A plateia não foi apenas espectadora; foi interlocutora de uma peça que se propõe a ser o espelho de uma época, uma pequena revolução narrativa que transforma anedotas provinciais em cartografias sociais.
Se Lavoreremo da grandi é, por um lado, uma elegia dos perdedores, por outro é um convite a olhar os personagens da província não como simples piada, mas como signos de um clima cultural maior. Albanese, com sua sagacidade, lembra que o riso pode ser um corte preciso: ele revela o que o discurso oficial pretende esconder. E nessa precisão reside o poder do filme — e do próprio encontro promovido no Conca Verde.
Ao final, entre aplausos e reflexões, a sensação ficou clara: o entretenimento aqui não é escapismo, mas um reframe da realidade — uma forma estética de compreender as fraturas sociais. E, como em um bom roteiro, ficamos com a imagem final de um artista que procura, incansavelmente, dar voz aos que o mercado prefere não ouvir.






















