Por Chiara Lombardi — No espelho do nosso tempo, subir num palco muitas vezes revela mais que talento: expõe medo e memória. Os médicos da Federação Nacional dos Conselhos de Médicos, Cirurgiões e Dentistas (Fnomceo), pela plataforma anti-bufala “Dottore ma è vero che…?“, explicam que a ansiedade de palco não é uma doença em si, mas uma reação ansiosa que se manifesta em ocasiões de apresentação pública e que pode, sim, ser ultrapassada.
Os sintomas são bem conhecidos: tachicardia (batimento cardíaco acelerado), tremores, sensação de frio nos membros, sudorese, boca seca, dificuldade para falar ou manter a respiração regular. Em alguns casos surgem também náuseas, vertigens e confusão mental. É fácil imaginar como o cenário do Teatro Ariston, palco do Festival de Sanremo, amplifica esse medo — é o roteiro oculto da sociedade transformado num holofote.
Mas afinal, o que é a ansiedade de palco? Segundo os especialistas, trata-se de uma forma de ansiedade ligada à exposição pública: músicos, palestrantes, atletas, estudantes em provas, candidatos em entrevistas e quem mais se vê diante do julgamento alheio podem experimentar esse fenômeno. Também chamada de ansiedade de desempenho, ela nasce do medo de errar, decepcionar ou mostrar vulnerabilidade. E importante: o nível de experiência não a elimina — grandes artistas já admitiram temer desafinações, lapsos de memória ou simplesmente o travamento diante das câmeras.
Quando procurar ajuda? Não é simples autoavaliar a própria ansiedade, e os médicos advertem contra a auto-diagnose via testes online — sites para músicos ou atores que oferecem questionários podem inspirar confiança, mas não têm validade científica. Se o medo se torna incapacitante, leva a evitar palcos, compromete estudos, uma carreira ou a participação em oportunidades, o caminho indicado é consultar o médico de família. Nesse processo, será avaliada a presença de transtornos associados, como depressão, transtorno do pânico ou transtorno de ansiedade generalizada, e discutida a necessidade de tratamento específico.
Superar a ansiedade de palco é um objetivo possível, conforme ressaltam os peritos da plataforma. A abordagem deve ser personalizada: avaliam-se manifestações e a percepção da sua gravidade. Revisões científicas sobre tratamentos para a ansiedade de desempenho em músicos apontam, por exemplo, benefícios da terapia cognitivo-comportamental e de técnicas combinadas que envolvem exposição gradual e estratégias de regulação fisiológica.
Na prática — e aqui falo como quem observa o espetáculo cultural com olhar crítico — algumas técnicas úteis e consensuais incluem exercícios de respiração diafragmática para reduzir a taquicardia, ensaios com público simulado, aquecimento vocal, progressiva exposição a situações de performance e trabalho de reestruturação cognitiva para enfrentar pensamentos autocríticos. Evitar substâncias estimulantes como excesso de cafeína na véspera e garantir sono adequado também fazem parte do arsenal preventivo.
Se a ansiedade persistir e interferir profundamente na vida profissional e pessoal, a intervenção especializada — psicológica ou interdisciplinar — é o passo seguinte. Vale lembrar que procurar apoio não é sinal de fraqueza, mas um ato de responsabilidade com a própria carreira e bem-estar: é o reframing da vulnerabilidade em estratégia de sobrevivência artística.
Em suma, a ansiedade de palco pode ser compreendida, mapeada e tratada. Como em um bom roteiro, reconhecer as cenas em que nos bloqueamos permite reescrevê-las com novas falas, novos enquadramentos — e, por que não, um final onde a presença no palco volta a ser escolha e não sentença.





















