Guarde a palavra nostalgia apenas para o dicionário — com artistas, o que se vê é um movimento mais complexo: os anos 90 retornam aos palcos italianos com a força de quem traduz memória coletiva em espetáculo e sentido. Não se trata só de saudade: é um reframe cultural onde o público busca reencontrar emoções autênticas e onde o mercado, claro, responde com plateias esgotadas, merchandising que some em horas e públicos intergeracionais.
Depois do retorno dos CCCP, será a vez do C.S.I. retomar os palcos no próximo verão europeu, mantendo uma energia que parece intacta. A banda de Giovanni Lindo Ferretti e Massimo Zamboni — referência dos anos 90 ao traduzir frustração e inquietude social em música — anuncia seis concertos em locais simbólicos a partir de agosto. São 25 anos desde o último encontro coletivo, e a decisão não é casual: “Ci legava un profondo senso di riconoscenza…”, disse Ferretti, apontando para uma responsabilidade ética e estética de revisitar aquilo que marcou uma geração e que hoje ecoa em novas audiências. Antes dos shows completos, no dia 4 de julho haverá o C.S.I. Preludio: Ferretti/Zamboni no PlayTime Festival, em Ulan Bator — prelúdio que culminará, no ano seguinte, num concerto integral dos C.S.I. na capital mongol. Um filme de Davide Ferrario registrará essa narrativa, transformando a turnê em documento cultural.
Também entre os retornos mais aguardados está o dos Bluvertigo, com uma data marcada para 14 de abril no Alcatraz, em Milão, com a formação original. Amados e contestados, e sempre presididos pela figura pública de Morgan, os Bluvertigo merecem reconhecimento por terem introduzido ao grande público elementos de eletrônica e glam sem domesticar a vanguarda. No flyer do show, a frase «essere umani» — “Um ser humano é uma linha de luz em meio ao ruído” — revela a ambição poética do retorno: não simplesmente reviver uma década, mas materializar uma experiência sensível que permanece pertinente.
O ano de 2026 marca ainda a celebração dos Litfiba, que comemoram o aniversário de 17 Re com a formação que gravou o álbum, excetuando o baterista Ringo De Palma, falecido em 1990: Piero Pelù, Ghigo Renzulli, Antonio Aiazzi e Gianni Maroccolo. Há expectativa entre os fãs de que a trajetória do grupo reserve surpresas e novas programações para o calendário de shows.
O fenômeno é também econômico e social: bilhetes voando, público diverso em idade e procedência, preços de merchandising elevados, mas aceitos como parte do ritual. Culturalmente, essas reuniões atuam como espelho do nosso tempo — o retorno do passado não é regressão, e sim uma oportunidade de ler o presente à luz de melodias, palavras e estéticas que já foram roteiro de transformação. Para os artistas, subir ao palco novamente implica responsabilidade narrativa: cada canção reencenada conecta memórias pessoais a um mapa coletivo de identidades em constante revisão.
Em suma, 2026 se anuncia como um ano de reencontros e de pequenas revisões do cânone pop-rock italiano. Não é só revival — é a continuação, em ato, de um diálogo entre gerações. E como em um bom roteiro, o que importa não é apenas a cena que vimos antes, mas o que ela nos permite ver agora.
Chiara Lombardi — Espresso Italia






















