Por Chiara Lombardi — A atriz Anna Valle, rosto recorrente da ficção italiana, retorna à primeira noite da televisão aberta em uma trama que funciona como um espelho do nosso tempo: uma história de culpa, perda e recomeço. Na nova série Uma nova vida, exibida na Canale 5 por quatro quartas-feiras consecutivas, Valle é uma médica em ascensão, esposa e mãe feliz. Um acidente nas montanhas que tira a vida do marido transforma seu percurso: ela é julgada e condenada, e a partir dali o roteiro oculta da sociedade começa a revelar tensões íntimas.
Ao meu modo de ver, a série não é apenas um thriller processual; é um estudo sobre a resiliência e o papel do vínculo entre pais e filhos dentro de uma situação límite. «É a história da renascença de uma mulher em que o tema do relacionamento entre pais e filhos é central», diz Anna Valle. «Para ser envolvente, precisamos narrar essas dinâmicas dentro de um cenário extremo — aqui, a injustiça da detenção — mas são precisamente as pequenas feridas familiares que tornam todos os personagens reconhecíveis».
No elenco ao seu lado está Daniele Pecci, e, ao longo da carreira, Valle já contracenou com nomes como Alessio Boni, Gassmann e Tomaso Gassman— e até com os sex symbols do momento. Ao ser questionada sobre o melhor beijo em cena, ela sorri com aquela elegância discreta que a acompanha: «O melhor beijo no set? Neri Marcorè». Uma escolha que subverte expectativas: Marcorè, por vezes excluído dos rótulos de galã, aparece aqui como um actor capaz de surpreender. Do lado oposto, a atriz lembra de um beijo tão ruim que pensou: “ammazza, come bacia male”, mas guarda o nome com a mesma compostura com que constrói sua carreira.
Falar de Anna Valle também é falar sobre imagem pública. Ela confessa que, por muito tempo, não se reconhecia na aura de elegância e compostura que o público lhe empresta. «No começo não me reconhecia nisso», conta. A aceitação veio aos poucos: havia até um episódio em que, em alto mar e diante de uma travessia difícil, um amigo lhe disse: “você é elegante até quando está mal”. Foi um quadro resignado, quase cinematográfico — um reframe da realidade que a ajudou a aceitar essa percepção alheia.
Se a televisão foi seu terreno mais fértil, o cinema lhe deu menos oportunidades — algumas por escolhas, outras por prováveis acasos do mercado e do casting. Ainda assim, o desejo de fazer mais cinema permanece vivo. «Já perdi papéis por motivos importantes, às vezes o provino não funcionou, outras havia questões contratuais. Não é um rancor, mas certamente é uma aspiração».
Trinta e um anos depois de sua vitória em Miss Italia, Valle recorda duas imagens vívidas: o choro incontrolável quando Fabrizio Frizzi anunciou seu nome, e a figura calma do apresentador — uma âncora humana em um momento de ansiedade e estranheza. «Em um ambiente desconhecido, ele foi a chave familiar que me fez sentir à vontade», lembra ela, traçando um paralelo íntimo entre memória pessoal e a cena pública que a lançou.
Em Uma nova vida, que mistura o giallo com um intenso desdobramento emocional, Anna Valle encarna esse movimento de transformação: não apenas a mulher acusada, mas o mapa relacional que a envolve — filhos, amigos, inimigos velados. É, em última análise, um convite para olhar além do veredicto e ler as pequenas narrativas que estruturam uma existência. A série promete não só suspense, mas um convite reflexivo sobre como julgar e ser julgado no palco coletivo da vida.
Para quem acompanha a atriz desde os primórdios, é possível perceber que sua trajetória funciona como um roteiro sobre identidade pública, escolhas profissionais e afetos que atravessam gerações — um eco cultural que nos lembra: por trás de cada rosto conhecido, há um percurso cheio de reescrituras.






















