Por Chiara Lombardi — Numa época em que a cultura é frequentemente o espelho do nosso tempo, a atriz Anna Ferzetti encarna duas figuras opostas que nos obrigam a olhar para os limites da empatia e do julgamento social. Pela primeira vez protagonista absoluta tanto no cinema quanto no teatro, Ferzetti estreia no grande e no pequeno palco com projetos que conversam — cada um à sua maneira — com a memória coletiva e com o roteiro oculto da nossa vida pública.
No cinema, ela é a professora de inglês, a carismática e severa “professoré” chamada assim pelos alunos de um liceu na periferia romana de Rebibbia. Trata-se de Domani interrogo, adaptação do romance de Gaja Cenciarelli dirigida por Umberto Carteni, em salas a partir de 19 de fevereiro. A personagem escolar surge como uma figura central num sistema que muitas vezes não é protegido — e Ferzetti aposta que o filme possa acender debates e atenção para a condição dos professores e do ensino público.
No teatro, a virada é brusca: no espetáculo People, places & things, de Duncan Macmillan, dirigido por Pierfrancesco Favino, em cartaz no Ambra Jovinelli a partir de 4 de março, ela interpreta uma atriz em processo de reabilitação, confrontando-se com álcool e tóxicos. “É uma mulher que pede ajuda — diz Ferzetti — e descobre coisas inquietantes sobre si mesma.” No palco, o tema das dependências funciona como um espelho: revela vícios públicos e privados e coloca questões universais sobre culpa, recuperação e identidade.
Entre os dois papéis, Ferzetti confessa sentir-se mais à vontade como a professora — um papel que carrega um propósito social —, mas admite fascínio pelo papel teatral justamente por tirá‑la da comfort zone. Em palco, explica, a experiência é diferente: “Me sinto mais em casa no teatro, talvez porque cresci praticamente nos bastidores, tendo estreado com meu pai, Gabriele Ferzetti, em La figlia di Iorio.”
A colaboração com Pierfrancesco Favino não é novidade: é a terceira vez que ela trabalha sob sua direção. Favino, que é também seu companheiro, conhece nuances do seu caráter e sabe como conduzi‑la em cena. Há confiança, proteção — e inevitáveis atritos durante as provas: “Somos muito parecidos e exigentes no trabalho; as discussões ajudam a perceber onde errar e como melhorar.” Essa dinâmica pessoal e profissional revela o roteiro íntimo que orienta a criação artística do casal, um pequeno estúdio de invenções e confrontos.
Além das estreias, Ferzetti será madrinha do festival Filming Italy em Los Angeles — mais um capítulo de uma agenda intensa. “Todos juntos. Ou tudo ou nada, é o meu karma!”, conclui com a mesma sinceridade que permeia sua trajetória recente, que inclui também participação no filme La grazia, de Paolo Sorrentino.
O que liga esses trabalhos é uma curiosidade sofisticada sobre o comportamento humano: seja no contexto da escola ou no espaço cru da reabilitação, Ferzetti assume papéis que servem como pequenos espelhos culturais, convidando o público a um reframe da realidade. O ponto de encontro entre cinema e teatro aqui não é apenas a presença da atriz, mas a capacidade das narrativas de devolver ao espectador o sentido coletivo de sofrimento e transformação — o verdadeiro eco cultural que forma o nosso presente.





















