Por Chiara Lombardi — Quando o palco se transforma em espelho do nosso tempo, as piadas não permanecem inocentes. Andrea Pucci, anunciado como co-apresentador do Festival de Sanremo, voltou a colocar em evidência o roteiro oculto que atravessa entretenimento, política e identidades: uma combinação de fotos provocativas nas redes, piadas que beiram o agressivo e acusações formais de quem enxerga ali uma linha que não deveria ser cruzada.
No seu Instagram circulou uma imagem que resume muito da sua marca: costas à mostra, olhar perdido no horizonte — um gesto de comicidade corpórea que divide plateias. Há quem ria convicto e quem reaja com um encolher de ombros exasperado. O seu humor é, como se diz, de “estômago” — e por vezes vai além. Os teatros que lota contrastam com as críticas que lhe colam uma etiqueta política: Pucci se assume como “o único comediante de direita” e não se esquiva de proclamações animadas nas redes.
O ponto central da controvérsia não é o posicionamento político em si, mas a forma e o tom. Em postagens e monólogos, Pucci intitulou adversários como “zecche” da esquerda e comemorou vitórias do partido Fratelli d’Italia com tom de torcida de bairro. A escalada verbal ganhou outro capítulo quando voltou-se para figuras públicas: palavras dirigidas a Elly Schlein sobre sua aparência e comentários comparativos a atores clássicos soaram como gracejos escolares mais do que sátiras políticas. Quando confrontado, a resposta foi um clássico “arrepender-me sem me arrepender”: admitiu a «falta» como um ato de loucura momentânea, mas declarou que repetiria a piada.
As críticas chegaram também do âmbito institucional. Após o anúncio de sua presença no festival por Carlo Conti, nas redes sociais emergiu a expressão “tassa TeleMeloni” e uma nota dos parlamentares do PD na comissão de vigilância da Rai exigiu explicações: pediram que os dirigentes da emissora esclareçam a escolha por um comediante que definem como “palpavelmente de direita, fascista e omofóbico”, lembrando episódios anteriores em que Pucci teria feito gracejos dirigidos à sexualidade de um jovem do meio artístico.
Pucci respondeu às acusações relativas a Tommaso Zorzi, lembrando que a sexualidade “deve ser vivida em liberdade” e que se desculparia se alguém se sentisse ofendido — sem, entretanto, renegar o teor das piadas que compõem seu repertório. Esse gesto ambíguo — um pedido de desculpas que reafirma o direito à provocação — deixa claro o impasse: onde termina a sátira e onde começa a agressão?
Como analista cultural, não vejo apenas um escândalo isolado, mas um eco cultural: o episódio revela um recalque social e um reframe da comédia que tensiona memória e representação. Pucci opera em um território velho quanto o palco: monólogos sobre dinâmicas de casal, tropos do século passado atualizados com ironia áspera. A questão que Sanremo agora expõe é se o grande festival aceita ser espelho sem filtros ou se decide ser moldura que impõe limites.
Independente da opinião sobre o artista, o caso coloca em debate a responsabilidade das emissoras e o significado público da comédia no centro de um país que observa, entre risos e reprovações, o próprio reflexo. No roteiro coletivo, Pucci é personagem e provocador — e Sanremo, mais uma vez, promete ser palco não só de canções, mas de questões que atravessam a sociedade.






















