Por Chiara Lombardi — Hoje celebramos o aniversário de Alice Cooper, nascido em Detroit em 4 de fevereiro de 1948. Conhecido mundialmente como a grande face do shock rock, o homem por trás do nome artístico é, na verdade, Vincent Damon Furnier. A trajetória que transformou um jovem do meio-oeste americano em um arquétipo teatral do rock é ao mesmo tempo matéria de palco e espelho do nosso tempo: cada gesto performático carrega um roteiro oculto sobre medo, espetáculo e identidade.
Em sua autobiografia, cujo título em italiano chega como La mia vita tra rock e golf, Alice Cooper conta a origem inesperada do nome que viria a definir sua persona. Numa noite de mudanças e brincadeiras com nomes de bandas — quando tiveram de abandonar outros apelidos semelhantes a grupos já existentes — ele simplesmente lançou um nome feminino: Alice Cooper. Segundo seu relato, a imagem evocada era perturbadora e precisa, “uma menina com um pirulito numa mão e uma faca de açougueiro na outra”. Essa dissonância entre inocência e violência viria a se tornar a chave estética do seu espetáculo.
Mas a história do artista não se fez apenas de trovões e maquiagem. Um capítulo decisivo foi o encontro com Frank Zappa. Nos primeiros anos, a banda chamou a atenção do circuito de Los Angeles, e a audição para Zappa acabou abrindo portas profissionais, levando-os a um primeiro contrato discográfico que inscreveu o nome da banda nas páginas da cena alternativa dos anos 60. Esse episódio funciona como um daqueles cortes de montagem cinematográfica em que tudo muda de direção: a audição não apenas aprovou talentos, mas canalizou uma visão estética que tornaria Alice Cooper uma referência.
Ao longo de décadas, Alice Cooper consolidou-se por uma carreira que mistura turnês incessantes, álbuns e uma relação íntima com o teatro do horror. Aos 77 anos, ele declarou sentir-se com 30 — e segue em turnê, propondo que a longevidade artística é também uma forma de resistência simbólica. Não menos importante é sua paixão pela ala mais serena da vida: o golfe, tema presente em suas memórias e em projetos paralelos, onde a técnica e a disciplina encontram um contraponto à teatralidade do palco.
Outro segredo da durabilidade do astro é sua vida privada: a longeva união com Sheryl Goddard, sua esposa, com quem celebra mais de 50 anos juntos. A relação, discreta e sólida, atravessou as metamorfoses da fama e se transformou em alicerce para a performance pública de Alice Cooper. Sheryl Goddard esteve ao lado dele em muitos projetos e é frequentemente apontada como uma parceira criativa e equilíbrio pessoal — prova de que, mesmo nos roteiros mais barrocamente teatrais, existe um fundo de intimidade que sustenta o espetáculo.
A seguir, sete segredos que ajudam a decifrar a figura complexa de Alice Cooper, como se fôssemos remontar uma cena emblemática de um filme: os detalhes que resistem ao close-up.
- Origem do nome: o batismo artístico nasceu de uma improvisação numa noite de renomeações — e ficou por sua carga simbólica.
- Audição com Frank Zappa: encontro que abriu portas no circuito de Los Angeles e deu ao grupo sua primeira chance discográfica.
- Arquétipo do shock rock: sua estética combinou horror e humor, transformando o palco em set de cinema e empurrando os limites do show ao vivo.
- Teatro e performance: além da música, Cooper estruturou espetáculos que funcionam como pequenos filmes ao vivo, cheios de direção de arte e simbolismo.
- Paixão pelo golfe: contraste curioso entre a agressividade do palco e a serenidade da prática esportiva; tema de seus escritos e projetos pessoais.
- Vida a dois: a relação com Sheryl Goddard é um dos pilares de sua estabilidade, mostrando que por trás da maquiagem há disciplina e afeto.
- Legado cultural: mais do que hits, Cooper construiu uma linguagem estética que influenciou gerações e reverbera em cinema, moda e performance.
Se a carreira de Alice Cooper é um espelho do nosso tempo, é porque ela sabe transformar choque em narrativa — e narrativa em história cultural. A cada aniversário, o artista nos lembra que o entretenimento não é mero passatempo: é uma forma de cartografar medos, desejos e transformações coletivas. E, como num bom filme que revisitamos anos depois, sempre descobrimos novos cortes e leituras.
Feliz aniversário, Alice Cooper. O espetáculo continua.






















