Alfa, nome artístico de Andre De Filippi, chega ao Festival de Sanremo como um espelho do nosso tempo: jovem, genovês, e capaz de transformar a normalidade em potência estética. Aos 23 anos, ele conta que o seu primeiro hit nasceu no liceu — uma confissão que desmonta o mito do triunfo milagroso e revela o roteiro humano por trás da viralidade.
Ao conversar com a clareza de quem observa o mundo com a sensibilidade de um ensaísta, Alfa lembra que sempre foi um outsider: “o último a ser escolhido quando se jogava futebol”, imagem que funciona como metáfora do seu lugar social e artístico. Essa condição de estar à margem acabou virando, paradoxalmente, a sua arma: a recusa do exagero, do machismo e do espetáculo vazio transformou-se em identidade.
Em 2019, a explosão veio através do TikTok: Cin cin virou fenômeno, e a sua “bellissimissima <3” tornou-se um tormentone de verão. Alfa recorda a experiência com ambivalência. A viralidade trouxe visibilidade, mas também uma espécie de cárcere criativo — o público ia aos shows esperando apenas aquela única canção. “Era horrível”, diz, antes de admitir que fez as pazes com esse capítulo.
Parte dessa reconciliação passou por uma mudança de relação com as métricas digitais. Alfa conta que desinstalou o aplicativo Spotify for Artists — instrumento que atualiza os números a cada dois segundos e que, segundo ele, se torna uma armadilha emocional: adrenalina e vício que transformam a arte em termômetro. Durante a pandemia, esses números foram uma tábua de salvação, a única forma de sentir a circulação das próprias canções; depois, o confronto constante com as cifras revelou-se tóxico.
O percurso pessoal de Alfa também tem episódios de tensão familiar: só depois do seu primeiro grande concerto ele pôde, nas suas palavras, “fazer a paz com a mãe”. É uma cena quase cinematográfica — o reencontro íntimo depois do aplauso público — que revela o conflito entre reconhecimento profissional e laços pessoais.
Sobre Sanremo, Alfa confessou surpresa e gratidão. Em 2023 ele não conseguiu participar das audições do Sanremo Giovani por conta de uma doença que chegou a preocupar a equipe médica — episódio que, na narrativa do artista, reforça a ideia de que “há sempre um desenho maior”. Em 2024, convocado entre os Big por Amadeus, Alfa subiu ao palco para um dueto com Enrico Nigiotti na noite das cover, escolhendo a canção “En e Xanax”.
Esteticamente, o cantor mistura referências inesperadas: ele cita inspirações que vão de Platão a Saffo, sinalizando uma prática artística que dialoga com tradição filosófica e poesia antiga — uma combinação que reinventa o pop como campo de reflexão. Alfa não é um exemplo de pose: é antes um artista que transforma a simplicidade em gesto ético e estético.
Como analista cultural, é interessante ver em Alfa um reframe da realidade pop: o artista que se recusa a ser apenas produto viral e busca reconstruir a sua narrativa. Ele opera na semiótica do viral, mas tenta reescrever o roteiro oculto da fama, investindo na persistência do ao vivo, no cuidado com as relações pessoais e na liberdade de não medir seu valor por streaming. Em termos simbólicos, Alfa personifica o dilema contemporâneo entre espetáculo e autenticidade — um tema que segue reverberando no cenário cultural europeu.






















